sexta-feira, 26 de setembro de 2008

com a graça de deus


Toca o interfone. Eu acabei de sair do chuveiro e estou só em casa. Droga. Enrolo-me na toalha e saio deslizando para atender.
- Pronto.
- Oi?
- Pronto. Quem é?
- Oi. Bom dia, desculpe estar incomodando mas meu nome é Alberto e eu estou passando na sua porta pedindo um instante do seu tempo onde nós possamos estar falando sobre a minha missão como cidadão que é de alertar por que faço parte do Grupo Contra as Drogas. Eu era um viciado e um delinqüente e vivia nas ruas sem cidadania nem moradia e quando eu conheci esse Grupo e agora estou consciente,com a força de Jesus, por isso estaria gostando de falar com o senhor sobre a possibilidade do senhor estar me ajudando para que nós do Grupo Contra as Drogas continue salvando essas pessoas que estão pelas ruas como eu estava e com a ajuda de Jesus Cristo, fazer essas pessoas como eu estar entregando seu coração a Jesus e estar se salvando e se tornando novas pessoas com a graça de Deus.
- Agora não, meu amigo.
- Deus abençoe o senhor e toda a sua família com a graça de Jesus.
- Ok.

Mantenho o interfone no ouvido. Já encharquei metade da cozinha mesmo... Ouço o Albeto do Grupo Contra Drogas atravessar a rua e interfonar o vizinho.

- Oi. Bom dia, desculpe estar incomodando mas meu nome é Alberto e eu estou passando na sua porta pedindo um instante do seu tempo onde nós possamos estar falando sobre a minha missão como cidadão que é de alertar por que faço parte do Grupo Contra as Drogas. Eu era um viciado e um delinqüente e vivia nas ruas sem cidadania nem moradia e quando eu conheci esse Grupo e agora estou consciente,com a força de Jesus, por isso estaria gostando de falar com o senhor sobre a possibilidade do senhor estar me ajudando para que nós do Grupo Contra as Drogas continue salvando essas pessoas que estão pelas ruas como eu estava e com a ajuda de Jesus Cristo, fazer essas pessoas como eu estar entregando seu coração a Jesus e estar se salvando e se tornando novas pessoas com a graça de Deus.

A pessoa do outro lado do interfone diz alguma coisa que eu não posso ouvir. O Alberto responde:
- Deus abençoe o senhor e toda a sua família com a graça de Jesus.
E assim continua descendo a rua e abençoando a todas as famílias do meu bairro.

sábado, 20 de setembro de 2008

dança da chuva


Agora pode chover. Deixa de sol, e verão que ainda há um bom vazio para dormir. Agora que pode chover. Deixa de sol e verão. Dessa coisa toda iluminada, que a alma da gente apaixona mas cansa, por que paixão também é dolorir, paixão é pior que a cruz. Verão que há todo um dicionário de silêncios, das mais extintas raças, das mais retintas estirpes. Numa janela de casa, numa avenida, no carro, em todos o cantos. Paira sobre nós o anjo doce da possibilidade. É que você sabe, todo anjo é um homem nas entrelinhas. E como um desses anjos, eu fiquei segurando o sol. Até que ficassem secos meus dedos e secassem meus olhos. Até que toda a terra se iluminasse, por onde andassem meus passos. Dessa coisa toda alumiada, que a alma da gente alvorece mas estanca, por que tentar também é ferir, tentar é pior que amar. Por isso meu ofício acabou e eu desatei do sol. Descavalguei, Desmenti, virei um Desdeus. Com desdém, para poder escurecer meus dias. Sentei na calçada com as mãos nos joelhos. Sentei na calçada da estrada mais longa e disse: Deixa de sol e verão. Agora pode chover.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

armário de cima


Tive que olhar os textos velhos, por uma dessas questões de saudade ou solidão. Sei que eles ficam ali, na parte encimada do armário, exatamente para que eu não dê idéia de revisitações. Meu pequeno museu de palavras fósseis, cheio de insetos e resmungos (ou incertos e musgos). As pastas ficam lá encima para que eu não as alcance e para que amarelem sem cochichos. Mas, você sabe, tive que olhá-las. Há momentos que pedem esse tipo de passado.
Gosto mais das coisas que escrevi no ensino médio, menos das coisas que ficaram antes disso. Conversando com a fernanda, lembrei que o ensino médio me passou desapercebido. Nada que vivia refletia nos meus textos, não de forma direta. Eu permanecia alheio às preocupações gerais, inventando músicas nas aulas de física, e olhando os decotes das mocinhas, como fossem países temperados. Por isso esses textos de época soam sempre tão a parte. Tão partidos. Parecem rabos de lagartixa.
Eu os cozinhava nas folhas finais de caderno. E tanto prestava, que no fim do ano, o caderno era mais completo de trás pra frente que de frente pra trás. Tinha quase sempre a fronteira do mundo: a parte em que as cadeias de polímeros desoxidantes se encontravam com as conversas com a meia-noite.
Tem gente por aí que morre de medo do próprio passado. Ou que não entende para que diabos ele existe. Tem gente que pega o passado feito uma máquina de modular nuvens, e não sabe o que fazer com ele. Acha trambolhoso, afiado nas bordas, pesado. Eu não.
Tenho muito desse orgulho tolinho pelo meu passado. E hoje pego minhas coisas antigas para me alegrar ou me entristecer, nos momentos que preciso. Queria tanto lembrar mais, saber mais do que eu era, só que ficou tudo nublado. Ficou tudo manchado de chuva. Culpa dessa mente de pernilongo que eu tenho. Cheia de insetos e resmungos.