
Todo mundo está falando sobre Eloá. Todo mundo falava sobre Nardoni. Agora ninguém mais fala. Na tv, no rádio, nos jornais... tudo esmiuçado, destrinchado, repetido numa sucessão vertiginosa de fatos. A menina perdeu até o sobrenome. Agora é só Eloá. É íntima dos lares brasileiros, podia ser vizinha de qualquer um, uma filha, uma prima. Não é mais preciso dizer com todo o jargão jornalístico: Eloá Fulana, tantos anos, moradora de sei lá onde.
É sabido cientificamente que nossos narizes se acostumam com um cheiro pelo excesso de exposição. Se você por acaso vai morar numa peixaria, o cheiro de peixe te incomodará por um bom tempo. Mas, depois, você se torna imune a ele, e deixa de senti-lo. Seu olfato fica saturado.
A mídia nos satura de informações sobre determinado acontecimento. Chamam-no de “caso”. O caso Eloá, o caso Nardoni, etc. Gastam tempo, horário e dinheiro destrinchando cada detalhe, transformando tudo em uma novela. E nós nos tornamos imunes. Depois de um tempo, a exposição é tanta que não lembramos mais de nada. É como se esgotássemos o assunto de uma forma tão definitiva que, passado um instante, já nos esquecemos. Logo surge outro “caso” e outro e outro e outro e outro.
O problema dessa atuação da imprensa é que ela impede o discernimento. Aproveita o calor do acontecimento para um bombardeio tão cansativo de detalhes que, quando a poeira baixa, não nos damos a chance de pensar a respeito. O público tem chance apenas de ficar colerizado, de rogar pragas, se indignar e pronto. Não há momento para reflexão. Ponto negativo para a mídia brasileira e sua concepção pré-histórica de utilidade.
Ponto negativo para nós, o público. Por chamarmos a Eloá de Eloá e não de Eloá Fulana, de tantos anos, nascida sabe-se lá onde. Por chamarmos o acontecimento de “ Caso Eloá”, como se fosse um seriado americano. Nós brasileiros e nossa grande capacidade de nos tornar íntimos sem laços verdadeiros. O fato é terrível sim, com certeza. Mas nós não somos a mãe de Eloá para nos indignarmos e nos encolerizarmos. Não temos esse dever. Nosso dever é olhar de fora e enxergar os erros. O que aconteceu não foi uma novela, cujo intuito é fazer com que o telespectador se identifique com as personagens. Não são personagens, nós não temos que sofrer com eles, torcer por eles, criar expectativas por eles. São seres humanos. E a nós, como seres humanos, cabe o difícil dever de observar, aprender e voltar o exemplo deles para nós mesmos.
Basta de assistir a realidade como uma novela de segunda.

