terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Agradeço a chuva


Dirigir sempre foi um martírio para mim. Não, minhas aguçadas técnicas ao volante não representam perigo para a sociedade organizada, senão para mim mesmo. Adoro bater o carro contra coisas inanimadas.
Mas ontem descobri que há uma paz indescritível em dirigir numa segunda feira de madrugada pela cidade molhada de chuva. Grandes pensamentos habitam a nossa mente nessas horas, quando é só de silêncio e só de água que traçamos todo o trajeto. Faz-me ganhar vontades de ter uma cidade só para mim, sem pessoas, sem carros, só o meu e só a mim. Só as portas fechadas das lojas, as praças escuras e os sinaleiros piscando amarelo. Nem putas nem mendigos, nem arruaceiros dando cavalo de pau. Só uma madrugada de segunda com chuva e uma cidade completamente minha. Dizem que gostar da solidão é dar provas de um grande egoísmo, pois que nenhum ser humano é por si só suficiente para passar dessa vida sem ter par. Dizem que andar sozinho e sem medo é achar-se um pequeno deus, cheio de ar e ignorância. Eu por mim não sei. Talvez a solidão nos queira dizer alguma coisa. Talvez a tristeza nos queira falar de algo que não ouvimos. E eu gosto de escutá-las, gosto de deitar o ouvido no peito frio da cidade e supor seu palpitar. Sem que ninguém esteja por perto para me chamar de só.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Crítica do Salame


Como vocês sabem, a Perdigão fica no Coração do Brasil. E quem já viu a propaganda entende que é no Coração do Brasil que se faz a comida BOA de verdade. BOA mesmo, com todas as letras maiúsculas e salivantes.

O Coração do Brasil é um jardim cheio de pessoas felizes. Há velhinhos felizes sorrindo para a câmera, há crianças saracutiando alegremente, há um casal de namorados deitados na grama. A felicidade é tanta que imediatamente me remete a outra propaganda: a do Arroz Cristal e sua orgia de felicidade em forma de grãos.

Cá com meus botões, fico intrigado sobre como é possível produzir propagandas tão tocantes para vender salame. Por que, até onde eu me lembre, alimentos como salame, apresuntado e lingüiça nunca foram sinônimo de outra coisa senão gordura animal e problemas intestinais. Desculpem, marqueteiros, mas eu ainda não consegui absorver a idéia. Provavelmente em breve eu vou começar a sentir uma necessidade insuperável de comer toneladas de apresuntado para ser feliz. Mas ainda não.

A arte de vincular a imagem do seu produto a cenas de alegria e beleza é um dos pilares mais óbvios da publicidade. Goebbels sabia disso, os soviéticos sabiam também. Mas parece que a maioria das pessoas de hoje não se dá conta e acha tudo muito normal. Ou melhor: não acha nada. Observam outras coisas, percebem outras coisas, estão atentas a outros detalhes. Passa desapercebido, por exemplo, a tentativa de vincular salame à família. Ora, a menos que você seja um descendente legítimo de alguma família da Toscana, o salame não deve ter mais valor simbólico para você que o brócolis ou o torresmo. E é salame, minha gente, salame! Carne de vaca moída e fermentada, enfiada dentro de uma tripa. É tão desconfortável que, se você rever as propagandas da Perdigão, vai notar que o que menos aparece é o produto que ela está tentando vender.

Não que isso seja importante.Provavelmente não é. E nada contra a Perdigão em si, pobrezinha. Ela foi só um bode expiatório, um caso que eu considerei mais extremo. É algo que a gente nota em propaganda de refrigerante, supermercado, calcinha, sabonete, shampoo e o diabo a quatro. Se houvesse propagandas de drogas e bombas atômicas, com certeza a temática seria parecida. Um grande jardim com pessoas se divertindo, sorrindo para a câmera e injetando heroína. No Coração do Brasil, onde se inejta a droga PURA de verdade. Há que se pensar nessas coisas, principalmente nas épocas de natal. Não com desespero, como o Zé Mané que aqui escreve, mas com alguma ressalva. Afinal, se somos assim tão espertos para saber que tudo não passa de marketing, o que exatamente estamos fazendo pela nossa felicidade? Em que mesmo a estamos procurando?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um olho de aprendiz


Foi em outubro, num dia quente. Eu disse:
- Não, não sei. Você me ensina?
Ele pareceu surpreso. Não esperava ouvir aquilo. Nem eu esperava dizer, mas disse. Ele olhou para mim por um tempo e trazia no semblante duas vigas de concreto. Não era um homem de ensinar, não tinha o tato. Fazia as coisas por conta própria, com a própria grossura das mãos. Tratava os outros com poucas palavras, com poucos gestos, com pouco desvio. Não que fosse mal, ou bruto ou bárbaro. Era apenas fechado e um tanto encrespado. Pelo bem que me conhecia, não esperava de mim aquele tipo de atitude.
Por que eu também não era de aprender. Os milhares de olhos da minha vaidade vigiavam meus atos. Gostava do sabor de petulância que eu cultivava e não dava a torcer braço nem dedo. Sempre fui do tipo que ficava sem saber ou que me abstinha de algo para não dar mostras de desconhecimento.
Então ele me olhou por um tempo, depois se voltou para o carro aberto. Falou baixo e rápido, mostrando aqui e ali com os dedos. Estava escrito ao seu redor, para quem quisesse ler, que ele travava naquele momento uma briga hercúlea contra a própria intolerância. Por fim, falou um entendeu? entre dentes.
- Não, não entendi. Você pode repetir?
Ele parou de novo. Olhou para meu rosto como se procurasse meu escárnio. Queria ver o rabinho da ironia escondida dentro da minha boca. Mas não achou nada. Enquanto eu segurava dentro de mim vinte e cinco demônios da vaidade. Não havia entendido e podia deixar para lá. Podia deixar sempre que alguém fizesse por mim o que eu não sabia. Éramos naquele momento dois machos feridos. Eu ferido em meu orgulho de saber sempre, ou ao menos aparentar. Ele ferido em sua tolerância para com alguém que sempre lhe pareceu sábio ou pelo menos atrevido. Por que eu iria querer saber isso agora? Ele tratava muito bem daquilo, que eu ficasse com meu alemão e meus livros. A cada um o que é de sua habilidade.
Mesmo assim repetiu, até que eu compreendesse. Não sei se conseguiria fazer por minha conta, caso precisasse. Mas sei que me tornei melhor naquele momento, e ele também.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Saudade


inspirado no texto de Marília – http://www.mariadeverdade.wordpress.com/



Saudade para mim é cheiro. Outras sensações podem dar mais certo com outros sentidos – alegria talvez seja tato, talvez preguiça seja paladar. Mas saudade não, saudade é cheiro. É uma coisa que não há como impedir, que a gente sente quando respira fundo. Depois vem o gosto, os sons, as cores, todo o resto. Mas antes disso, antes mesmo do prenúncio, o que se sente é o cheiro.
O mundo está abafado de saudades. Das mínimas e das máximas saudades. Alguém partiu e deixou seus passos sobre o quintal. Alguém perdeu nos nossos ombros um abraço que ficou apertado. Alguém foi embora e esqueceu o cheiro dos cabelos no travesseiro e a terrível, terrível, terrível sensação de que esse alguém está prestes a chegar de novo. Mas não chega. A mais mínima das minhas saudades eu guardo no vão dos dedos – é a saudade das mãos que segurei, da areia na praia e do focinho de um cavalo indócil – Agora a saudade se confunde com a vontade de soltar. A mais máxima das minhas saudades eu ainda cultivo: a saudade da vida, quando ela se esquecer de mim e deixar só o cheiro dos cabelos em algum travesseiro. Quando eu for velho, tão velho que até meus ossos estarão caducos, então saberei qual foi o cheiro que as minhas mãos deixaram nas mãos das pessoas que amei. Então saberei do cheiro que minhas palavras guardavam. Mas, por enquanto, agora que sou novo e idiota, continuo atado à melancolia, que é a saudade imensa de tudo que eu ainda vou viver.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

andando comigo

Mas, por enquanto, por hoje e pelos dias que hão de vir, quero mesmo é andar comigo, saber de mim. Há muito escuro em meus sentidos, litros e litros de não-saber, escorrendo aos poucos pelos meus olhos, como se fogo, como se neve, como se branco antes de escurecer. Preciso, por hora, sentar na parte alta das previsões e sorrir – ao fundo a cidade ainda acorda. Gosto do idioma do vento, da canção das ruas, e a chuva me acompanha, com seu passo lento e plural. Por todos os dias me recordarei de seu gesto, e isso significa apreço. Significa que há restos de seu sorriso no meu, e um pouco de sua presença na minha. Por onde eu for, andando como tenho andado, levo notícias suas – seja por minhas costas arqueadas, seja por minha voz macia. Quero voltar a cantar, mas ainda não tenho razão. Por enquanto, por hoje e pelos dias que hão de vir, o silêncio continua a ser o meu refrão.