
Havia ruídos do outro lado. Não era uma porta grossa, inculta – deixava trespassar o som pelas suas frestas. Uma rachadura na pele de tinta vibrava quando o barulho era mais alto. Mas aquele som não era alto. Era abafado, criminoso. Ele tinha medo! Mesmo sabendo que ela estaria longe, em outra cidade, pensando nele sim, mas sem poder enxergá-lo. Ele escondia por baixo das cobertas os gemidos, aquele cachorro. As vezes, de tão abafados, os gemidos pareciam choro. Tão doloridos e escuros. Ela imaginava os dois na cama depois da porta. A imagem queimava, e a outra adquiria todos os tipos de forma, sempre voluptuosa e vulgar. Sempre terrivelmente bela, terrivelmente perfeita, mas vulgar. Porém, enquanto a porta estivesse fechada, era possível acreditar que ela se enganava, que não era nada daquilo. Era possível acreditar em um relacionamento que parecia sempre íntegro, sempre completo.
“ Preciso abrir essa porta”, pensou. A mão dançou antes de se firmar na maçaneta. Podia ir embora e voltar depois, no tempo combinado, como se nada houvesse acontecido. Esteve viajando esse tempo todo, nem suspeitava. Ele não saberia, continuaria a tratando como sempre tratou. Ela continuaria distante. Os ruídos do outro lado se intensificaram e o rasgão na pele da porta vibrou até quase se soltar. Uma risada? Agora parecia uma risada. E depois alguém falando em outra língua. Ela estranhou e aproximou-se mais da porta. Era um homem. Um homem falava em outra língua. Talvez francês. É, ele sempre teve aquela queda pela França. Mas um homem? De repente, o homem começou a cantar. A cantar em francês. Ela não conseguiu mais se segurar. Abriu a porta de uma vez e com grande estrondo. Deparou-se com seu marido enrolado na cama, debaixo de cobertores, com cara e nariz de gripe, assistindo um filme francês.






