quarta-feira, 27 de maio de 2009

Desculpa, é desabafo. Desconsidere.

Goiana morre pisoteada em festa de rodeio de Jaguariúna, em São Paulo. Eu me pergunto o que as vacas e bois do rodeio pensaram a respeito dessa notícia. Não, não é uma piada de mau gosto, nem é uma tentativa frustrada de humor negro. O assunto é sério e triste. Há várias formas bárbaras de se morrer, mas ser pisoteado é algo revoltante, foge a qualquer bom senso. Sabe o que significa? Significa cair no meio de seres humanos que, em um momento, não se entendem como tal, mas como uma manada de bichos. Gente que se aprontou, que botou salto alto, que passou perfume, para agir como gnus. É ser assassinado pela ignorância alheia, pela brutalidade de homens, mulheres, crianças, adolescentes, pelo pensamento de massa, pelo instinto. Todo assassinato é um desrespeito, é desumano, mas ser pisoteado – e eu considero isso assassinato – é uma afronta à inteligência humana, aos mais mínimos dos nossos valores éticos. O instinto de sobrevivência nos cega e nos faz agir como manada. Funciona assim quando um grupo de pessoas está preso em algum lugar sob risco iminente. Um incêndio, um desabamento, um ataque surpresa, coisas assim geram levantes de seres humanos, capazes de passar por cima de qualquer coisa. Mas um show? Denegrir dessa maneira a honra e a civilização, rebaixar-se a um estado instintivo por causa de um entretenimento passageiro? Por umas horas de diversão que serão esquecidas nas próximas semanas? Pobres meninas que morreram pisoteadas... Tiveram que servir de mártir da ignorância humana. Mártires que ninguém considera, pois a ignorância não nos deixa aprender com nossos erros.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Vontades que dizem Ni


O advento do Orkut trouxe a fantástica possibilidade de se descobrir que, por mais bizarro, escabroso, atemorizante, ou nonsense que seja o seu gosto pessoal, existe uma comunidade para ele. E talvez umas cem pessoas que cultuem aquilo que você esconde e conversem sobre isso, criem tópicos e designações científicas, marquem reuniões fundem sociedades secretas com apertos de mão especiais. Ponto para o orkut! Tirou do limbo e da marginalidade muitas pessoas. Inclusão social é isso. Se você ama carne de porco com pavê, se é exímio caricaturista de maçanetas, se tem fetiches com desentupidores de pia e croatas de bigode, ou desentupidores de bigode e croatas de pia, saiba que você não está mais sozinho! Provavelmente há um grupo de pessoas esperando por você no Orkut.

Suspeito que todos nós tenhamos alguma dessas vontades que dizem Ni. É o que dá graça pra coisa, no fim das contas. Por que, convenhamos, de vez em quando é bom dar uma variada nos papos, uma cambiada de assunto. No meio do futebol, das garotas, do emprego, da faculdade, pode entrar uma discussãozinha básica sobre a Literatura Revolucionária do Leste da Nicarágua ou sobre pessoas que comem com os pés, ou que comem pés. Sei lá, há quem goste, certo? Segue uma lista resumida de algumas vontades bizarras que vez ou outra me acossam, e que me acompanham já de muito tempo:


1. Tenho vontade de um dia ficar com uma islandesa do cabelo preto. Tem que ser islandesa. Tem que ter cabelo preto. E não pode falar português. Pode ser a Björk. É algo como um desejo de consumo sexual. Compartilho com minha amiga Aninha a tendência de achar tudo que vêm da Islândia e países afins super sexy. Menos o Sigur Ros, claro. O Sigur Ros tem a sexualidade de uma caneta Bic.
2. Divirto-me inventando línguas absurdas. Quase todos os meus cadernos estão infestados de frases em códigos malucos que eu esqueço em duas semanas. Depois, passo anos tentando pensar no que diabos eu tinha escrito ali e se era importante. Sempre parece tão importante.
3. Toda vez que tomo um copo de leite tenho vontade de molhar a pontinha dos dedos na borda. Tá, isso não faz sentido nenhum e não é nada higiênico.
4. Gostaria de um dia fazer o trajeto da minha casa até o meu trabalho correndo e ouvindo música. Não correndo como um maratonista africano. Correndo como um fugitivo, na calçada apinhada de gente.
5. Queria fazer parkour. Mas tenho medo de quebrar a espinha e morrer.
6. Tenho vontade de humilhar publicamente e com requintes de crueldade todo adolescente que eu encontro. Quando estão em grupos ou usando uniformes de colégio, então, a vontade toma contornos psicóticos.
7. Tenho vontade de ir num psicanalista e dormir. Mas reconsidero ao pensar que seria a soneca mais cara da minha vida.


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ontem


Segure a minha mão se conseguir. Hoje eu me sinto leve como se fosse de papel. Toda essa cidade incrivelmente breve – toda de papel. Ontem talvez fosse de pedra...

Mas quando eu penso em tudo que eu poderia ter feito, todas as palavras que eu teria dito caso soubesse das coisas que eu não sei. Todas as pessoas que eu teria conhecido se escolhesse os caminhos que eu não percorri e se eu tivesse acordado mais cedo, como estaria o mundo cinco minutos antes de quando eu o encontrei?

Hoje eu andei tanto que minha pele está negra. De tanta noite que eu deixei entrar, sem ter um sol por dentro que me protegesse. Ontem talvez eu apenas deixasse passar...

E se eu penso em tudo quanto caberia em meus sapatos, caso eu nunca tivesse nascido. Tudo que ficaria não dito e calado, como as calçadas que não se quebraram e as viagens que eu não fiz. Todos os livros que eu nunca li, e os desenhos que não desenhei. Todas as meninas que eu nunca beijei, e todas aquelas que nunca me beijariam. Meus pés seriam lisos como os pés das sombras, passos leves como pombos. Toda essa cidade incrivelmente triste. Mas hoje talvez eu não andasse tanto se ontem eu não tivesse apenas deixado passar.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

O fator charme


Pois é, aí Deus criou o homem e a mulher e inventou de colocar entre os dois uma costela e duas naturezas completamente distintas e aparentemente incompatíveis. Num momento fanfarrônico de sua existência, o Todo Poderoso achou que seria bonito se os sexos se encaixassem de um jeito, mas, para chegar a esse encaixe, se desencaixassem de todas as outras formas possíveis. Certeza que, depois dessa idéia, Deus terminou o dia criando o ornitorrinco, os judeus e a química orgânica. E assim o negócio foi evoluindo, aconteceram algumas coisas legais como os Beatles e a Dinastia Ming na China, outras nem tanto como o Calígula e o III Reich, e tudo conspirou para que se chegasse a essa tarde nublada de maio, num cruzamento terrível do setor Bueno, quando minha irmã tentava me explicar de forma bem didática o que diabos era o fator charme.

Por que, meus caros irmãos homens do sexo masculino, não basta ser bonito, bem apessoado, inteligente, ter um carro, dinheiro na carteira, e etc. É preciso ter charme. Claro! Segundo a concepção científica que minha irmã fez sobre o tema, o charme consiste em: algo ou alguma coisa que individuo possui no olhar, no sorriso, no jeito de andar, na atitude, que denotem o ó do borogodó, o fiu-fiu da Martinica. Eu, no meio da conversa, logo atalhei:
- Ah, então é ser gostoso?
O que minha irmã, muito femininamente, negou. Charme é uma forma de vestir o terno e ficar parado na porta da boate com uma taça na mão, uma forma de falar: “ Oi, você deixou cair sua borracha”, um jeito de sorrir de lado. De maneira que eu passei a achar que o charme é, na verdade, o cálculo matemático que aproxima sua postura a do Frank Sinatra. Ou seja, imagine o Frank dizendo: “Oi, você deixou cair sua borracha” e depois tomando um martini seco. Isso é charme.

- Saquei. É tipo ser gostoso.

Além de tudo, o charme é um elemento democratizante, uma prova da benevolência feminina. Afinal, um cara X pode ser o rapaz mais bonito desse lado da Disneyworld, mas se ele não tiver charme, a coisa desanda. Da mesma forma que muitos caras não bonitos, ou até feios, conquistam pelo charme.
Mesmo que, dentro da definição exata do fator charme, ainda caibam idéia de atitudes e fisionomias relacionadas à inteligência, segurança, confiança, o fato é que quem controla o charme é mesmo o pessoal barra pesada. Como o outro que é um charme quando bebe, quando fuma ou quando faz coisas cafajestes. Aliás, ao que parece, todo cafajeste é charmoso. O bom mocinho da novela é bonito, mas ninguém agüenta. Por que? Por que lhe falta o charme do vilão! Falta a pimenta com caldo, o olhar misterioso, o ó do borogodó. Pergunte a uma moça um exemplo de charme e veja se ela vai responder o Kaká... Provavelmente vai responder o Jonnhy Depp. Exatamente por que ele tem cara de quem toma banho de cuspidela. E também por que hoje em dia é super moda falar que o Jonnhy Depp é o cara, certo? Se você perguntar até quem é o cara que elas escolheriam para colocar gasolina no posto para elas, a resposta seria o Jonny Depp. Mas isso por que ele faria com charme, claro.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Água


Com ela sempre havia a possibilidade de chuva. Era encontrá-la e pressentir com um arrepio o céu nublado, fosse o sol que fosse, e a secura que houvesse, mas com ela sempre havia o meio da tarde cinza.Talvez por isso os dias pesassem longos e oblíquos – aquela moça tinha um espírito líquido. Pingos sobre as barras de ferro do portão, o chão escuro do quintal e as nuvens que espiavam por trás dos muros. Nada permitia que eu me levantasse da cama, e a moça dormia sobre o meu braço como uma lagoa macia. Ela não tinha nada de mar, nada de oceano: era toda rio, fluvial, doce. Os sorrisos como libélulas, as costas chãs como pedras de riacho e as pernas... Ah, as pernas... Pareciam seixos, espelhos, botos. Era a correnteza das pernas que me enroscava, antes com violência, agora com mansidão morna, com tristeza. E ao meu redor, por todo o meu corpo e por todo o leito branco, a cachoeira negra de seus cabelos.


( goiânia, 13 de setembro de 2007)

terça-feira, 5 de maio de 2009

A pale horse


Da janela do hotel eu vejo um palhaço, cujo chapéu crispado me lembra a morte. No outro prédio, alguém fecha as cortinas e apaga uma luz: aqui dentro, sozinho, com os braços pesados, abro a gaveta do criado-mudo e encontro o Novo Testamento.
A página diz, em inglês: And I looked, and behold a pale horse: and his name that sat on him was Death, and Hell followed with him.
Lembro-me de Cash, mas considero as revisões, as implicações e a distância. Alguém liga a televisão no apartamento contíguo. Alguns passos no corredor se assemelham ao estalar do meu maxilar. O terno espichado dentro do armário, o quadro barato na parede.Corro os dedos pelas linhas da bíblia:
And power was given unto them over the fourth part of the earth, to kill with sword, and with hunger, and with death, and with the beasts of the earth.
Há uma aranha dependurada ao lado da lâmpada, as oito patas em forma de figo, os milhares de olhos invisíveis aos meus. No que se atenta? Estaria me vendo? Seus milhares de olhos concentrados no que eu não sei. Ela balança para um lado e para outro, sem que haja vento. As janelas estão fechadas. Penso em como as ações se esquecem do sentido, e como é fácil escrevê-las ao léu, tentando que sua simples menção nos impressione com sentido. Mas são apenas atos e estados: o palhaço que dança, a janela fechada, a aranha cujos olhos eu não enxergo. E então eu vejo, e eis um cavalo amarelo, aquele que está sobre ele se chama Morte, e o inferno o acompanha. Fica melhor em inglês, pondero e fecho os olhos. Algumas horas depois começaria a chover.