domingo, 30 de agosto de 2009

egeu


Queria ter um barco, que era para voltar para quem me ama e achá-la ali. Se eu precisasse me disfarçar de velho – a coluna já tenho torta, os olhos já tenho pálidos. A vida cobra quanto pela sabedoria? Queria ter um mar. Tão azul e fundo quanto deus, eternamente desconhecido – algo que eu pudesse navegar sem ver terra. Pois me disseram: então é de paciência que se tece o tempo. E de constância que se firma o fuso; a gente aprende quanto até ser sábio de verdade? Por que toda noite as minhas mãos desfazem um pouco do tecido; essas penélopes malditas chorando no escuro. Eu ainda espero sentado, novo e vulgar, querendo me casar com a memória de um herói morto.
Então são ilhas mas não são gente: cada um sozinho em sua porção de mar – sem boa esperança que dê cabo – mesmo quando o escuro ao redor começa a ceder – talvez eu prediga o que só a manhã diria. Queria ter um barco, mas barco para que? Queria ter um barco, mas só tenho um mar.


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Os intocáveis


Sei de uma menina que é avessa a tudo aquilo que não pode explicar. Por isso anda sem olhar para o céu, por isso dorme de uma vez, por isso usa a noite presa à franja, que é para o escuro esconder os rostos e os motivos. Por isso nunca fica sozinha. E está sempre só. Delicadamente só.

Quis ser bailarina, mas a tristeza inchou seus pés, a tristeza guardou sua delicadeza em uma caixa de carne. Quis ser amada, mas a maldade sangrou seu sorriso, a maldade prendeu-se ao seu pescoço e a empalideceu. E a fumaça de seu cigarro escondeu outros brilhos. Tudo nela está fechado, e os dias em seus olhos são domingos, são feriados de homens mortos. As mãos em punho, os dentes cerrados. Sei dessa menina cujos pardais morreram, cujos cães são bravos, cujos amantes são brutos e as luas são frias.

Quando ela anda rodeada pelos seus, os outros a definem como intocáveis. A menina altiva de lápis escuro, o rapaz magro com os ossos à mostra, e ela. Os intocáveis. Juntos eles construíram para si apenas coisas fantásticas: abismos, prisões, labirintos, fortalezas. Sei de uma menina que se gaba por ter sido capaz de erguer dentro de si um cemitério.

domingo, 23 de agosto de 2009

Para a menina que evitava flores


E se for correr, sugiro que não tropece. Sugiro que não se molhe, caso queira dançar na chuva. Mas se for amar, sugiro que não se apaixone. Se ainda assim se apaixonar, sugiro que não se machuque. Aconselho a não ouvir, caso toquem a sua canção no rádio. Caso façam um filme da sua história, sugiro nunca assistir. O final é sempre o começo, mas só para quem sabe viver. E se for morrer, sugiro que não se mate. Mas se alguém te matar, sugiro que não morra. Mais vale uma vida nas mãos do que duas guardadas no bolso. Se for ganhar dinheiro, sugiro que não fique rica. Mas se ficar, sugiro que me empreste algum. Se for me amar de novo, sugiro que não me conte. E se eu porventura te amar, sugiro que não acredite.Mais vale um amor na mão do que dois acenando de longe. Se for acreditar em Deus, sugiro que duvide muito. E se um dia casar na igreja, sugiro que diga não. E se porventura eu te mandar flores, sugiro que as evite. As flores, como as pessoas, murcham e se entristecem. Melhor evitar a dor, que a alma estremece e esfria. Mas se, ainda assim, você quiser receber minhas flores, sugiro que sorria.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Rock errou


Voltei ao roque no dia do meu aniversário, como quando era um adolescente bestial. Fui ao show do Marcelo Nova na calourada do DCE. E confesso, abestalhado, que estou decepcionado. Por que as pessoas batiam palmas para um homem que mal conseguia ficar de pé no palco? Por que as pessoas falavam como se fossem únicas e agiam como se fossem as mesmas? Por que defendiam a conscientização dos problemas sociais se estavam todos jogados e inconscientes pelo chão, bêbados demais para saber os próprios nomes? E que liberdade é essa que nos escraviza a uma imagem de rebelde, a um cigarro de maconha, a uma latinha de cerveja, ao instinto?

O Rock errou. Não há liberdade nessa juventude. Há escravidão. Há falta de sentido. Logo sobe ao palco um negro tão bonito, tão bonito, mas suas palavras se embaralham, suas frases não terminam. Ele diz: Liberdade! Ele diz: Contra o preconceito! Mas titubeia: está vencido. Na platéia, todos fazem as mesmas coisas. A felicidade que se estampa em seus rostos é brutal, inumana. Parece leve à sombra, mas se a luz revela os traços, o rosto se deforma num sorriso involuntário de escárnio. Todos eles conhecem os livros que deveriam ler, escutam as músicas que deveriam escutar. Todos eles estudam as ideologias que deveriam seguir. Estão todos em débito com o Rock. Vejo as mesmas pessoas da minha adolescência bestial – estão lá ainda. Mais velhos, mais gordos, bêbados do mesmo jeito. Ainda estão lá. E eu, que passei anos longe, volto e digo: Boemia, aqui me tens de regresso. Mas nada peço. Parece mesmo uma foto antiga. O Roque continua igual, mas eu mudei demais. E se há um espírito do rock, que tantos endeusam, ele não passa da fumaça de cigarro e de meninas belas e tristes transando com desconhecidos. Se essa é a liberdade, meus amigos, eu prefiro me aprisionar na vida.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

A novela


Entro na sala e saco uma revista de moda. Não há outras possibilidades. Quero dizer, há: duas dezenas de Caras. Por isso me agarro firme à Marie Claire. Fico me perguntando como as mulheres suportam viver num mundo em que revistas femininas são ilustradas com mulheres semi-nuas e não com homens semi-nus.

Há na sala uma moça repicando o cabelo e falando mais que o primo do diabo. A outra, de cócoras em frente aos pés de uma cliente, pinta unhas de vermelho como um índio que ministra um exorcismo. Conversam:

- Pois é, Margarete, você viu na novela ontem? Saiu até no jornal que os indianos casam animais para chamar a chuva.
- Are baba! Que povo mais engraçado!
- Como é que podem acreditar nessas coisas?

E depois a conversa mudou de foco para a situação romântica da novela, que eu não acompanho. E finalmente terminou com a mocinha do cabelo repicado insistindo na sua vontade de realizar o ritual de mutilar, recortar e abrir os próprios seios para inserir neles derivados de petróleo sinteticamente modificados e só assim ser feliz na vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

As pessoas engordam


É verdade, meu bem, o amor acaba. Não em pinotes, nem em tragédias. Acaba em manhãs tranquilas de sol, em filas de banco, em caminhadas noturnas. São dois para lá, dois para cá e pronto, está terminado o amor. Depois começa de novo, de súbito. Estamos lavando as mãos e o amor começa. Ou então olhamos para uma janela entre a lua e a cidade e o amor começa. Parece novo, até por que remoçamos um pouco: ficamos mais tempo diante do espelho, achamos as roupas do fundo do armário, afinamos o violão que estava encostado. Mas é o mesmo amor. O mesmo de antes. Ele morre e desmorre assim por que é eterno. É coisa por demais encaroçada na gente, dentro mesmo da gente, cheia de raizes e madeira. Todo o amor, meu bem, é eterno. O problema são as pessoas. As pessoas engordam. E depois, com o tempo, todas elas se transformam naquilo que infesta o mundo: pessoas gordas que falam sobre empregos, dinheiro e felicidade, que criam mais ou menos seus filhos e beijam mais ou menos suas esposas, que pensam seriamente em comprar novas casas e lêem livros da prateleira central das livrarias. Que esperam carecas nos consultórios médicos. Que se cansam muito e dizem que estão cansados. Que buzinam nos engarrafamentos, que pescam nos fins de semana, que assistem à novela e ao jornal do almoço, que desaprenderam francês, biologia, matemática. E sozinhos nos quartos se frustram por não ser o que tinham sonhado, até que passam a achar ridículo sonhar. Que votam e reclamam do governo. Que acham graça no que gostariam de ter construído e mentem, despudoradamente, que estão vivendo. Mas não estão. Estão apenas engordando. *