
Queria ter um barco, que era para voltar para quem me ama e achá-la ali. Se eu precisasse me disfarçar de velho – a coluna já tenho torta, os olhos já tenho pálidos. A vida cobra quanto pela sabedoria? Queria ter um mar. Tão azul e fundo quanto deus, eternamente desconhecido – algo que eu pudesse navegar sem ver terra. Pois me disseram: então é de paciência que se tece o tempo. E de constância que se firma o fuso; a gente aprende quanto até ser sábio de verdade? Por que toda noite as minhas mãos desfazem um pouco do tecido; essas penélopes malditas chorando no escuro. Eu ainda espero sentado, novo e vulgar, querendo me casar com a memória de um herói morto.
Então são ilhas mas não são gente: cada um sozinho em sua porção de mar – sem boa esperança que dê cabo – mesmo quando o escuro ao redor começa a ceder – talvez eu prediga o que só a manhã diria. Queria ter um barco, mas barco para que? Queria ter um barco, mas só tenho um mar.




