
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Baixa Estação

sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Foras musicais

Exemplo: “ Baby, ontem todos os nossos problemas pareciam tão distantes, mas hoje eles estão aqui pra ficar.... Meu bem, eu tenho uma passagem para ir embora. (ela tem uma passagem para ir embora – repete a prima). Vou pegar o próximo submarino para Morrinhos... Nunca daria certo entre nós, e vocÊ sabe: eu sou uma morsa.”
Exemplo: “ Amor, todas as ruas que temos que andar estão se mexendo, e todas as luzes que deveriam nos guiar estão nos cegando... Eu preciso ser eu mesma, não posso ser ninguém mais. Vou trocar seu submarino por uma BMW. Você precisa ser você mesmo, você não pode ser ninguém mais. Troque seu submarino por uma BMW...”
Exemplo: “ Nem sei o que eu quero mas sei que quero! Você não pode ficar comigo, por que eu sou o anticristo. E agora vou mijar no palco,adeus”
Exemplo: “Na vida a gente tem que entender que uns nascem pra sofrer enquanto o outro ri. Mas quem sofre sempre tem que procurar, pelo menos vir a achar razão para viver. E por falar em razão, é chegada a hora da Cultura Racional do 3º milênio. Leia o livro O Universo em Desencanto... Do Leme ao Pontal, não tem nada igual.”
Fora Michael Jackson: O relacionamento foi bizarro, escatológico, com o envolvimento de crianças e mudanças radicais de configuração física. Mesmo assim, ela demorará um ano para terminar e vai fazer do fim o maior show da sua vida.
Exemplo: “ Meu bem, eu nunca te traí. Billie Jean não era meu amante. Era só um menino de 12 anos que dizia que eu era a escolhida. Te juro que essa criança é sua. Você terá que pagar a pensão, não importa se a criança for branca ou preta. Se for preta, a gente resolve. Ah, e eu vou fazer uma festa pelo fim do nosso namoro amanhã e convidarei todo mundo.”
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Cena de verão no correio - ou mayonaise

Certos perfumes, em certas quantidades, causam em mim o mesmo efeito que um muçulmano entrando correndo dentro de uma sinagoga perto da faixa de Gaza. Dez minutos e meu nariz parecia uma abóbora. Era uma sorte, por que, com mais vinte minutos, eu poderia usar a fila para deficientes físicos.
Então entra a menina. Ela sente o ar condicionado, depois olha para a fila e faz uma careta. Vai até a mesinha de lado, besunta de cola a tampa da carta, escreve o endereço e segue para a fila. Na frente dela, está um rapaz de bermuda, cabelo despenteado, all star e uma eterna mania de não saber onde colocar os braços – eu. Tento não olhar demais, mas já é tarde: droga, como é bonita. Daquela beleza não ofensiva, que se mostra a medida que procuramos. Sinto, como é de praxe, a urgente necessidade de falar-lhe alguma coisa. De preferência algo genial que a faça se apaixonar perdidamente por mim e tirar a roupa. Ou só tirar a roupa. Mas ela, tão breve quanto entrou, enfia fones de ouvido nas orelhas e se fecha.
Foi quando a adolescência me salvou. Bendita adolescência! Dos fonezinhos, a uma altura pouco recomendável, salta um som familiar. mashing Pumpkins... A banda número 1 dos meus 16 anos! A música era Mayonaise:
Shut my mouth and strike the demons
That cursed you and your reasons
Outo of hand and out of season
Out of love and out of feeling
So bad.
When I caaannn
I will
Agora falar com ela havia se tornado uma obrigação. Afinal, não é todo dia que encontramos moças que escutam smashing pumkins em filas de correio.
- Smashing Pumpkins...
- HEIN? ( tira o fone de um ouvido)
- Smasing Pumpkins...
- É!
Pronto, falei. Não tinha mais nada a dizer. Podia comentar do calor, o que seria ridículo. Alguma piada sobre filas? Podia passar uma cantada! Genial! Apenas sorri e ia me virando, quando ela tirou os dois fones do ouvido:
- Estava assim tão alto?
- Não muito. Achei que era o som ambiente do correio...
- Ahahahah
- Fazia um bom tempo que não escutava essa música.
- E isso por que, em tese, você nem deveria estar escutando. Ficarei surda antes de ficar gagá.
- Eu te entendo. Também só escuto isso no máximo. O que mais toca aí?
- Um pouco de tudo.
- Sertanejo?
- Um pouco de tudo que seja audível.
- Bom, vamos fazer assim: Se tiver uma música do The Cure aí você me acompanha num sorvete depois que remetermos nossas respectivas cartas.
Ok, uma pausa explicativa: Eu realmente falei isso. A minha tese é que, de vez em quando, um espírito maligno de algum pedreiro da idade média se apossa do meu corpo, faz um estrago, e depois vai embora construir catedrais no inferno. Não significa que eu não seja um cara tímido, que eu saiba lidar com garotas ou que eu tenha coragem ou algo dessa cor. Significa apenas que um pedreiro da idade média as vezes baixa em mim e... Ok.
- Inbetween the days, mas é um cover - ela disse e riu.
- Do Herbert Vianna?
- Isso! Conhece?
- Demais.
- É rapaz! A música propiciando novas amizades...
- Ahahhahahah – pensei: menina com senso de humor. Fatal.
- Tem uma sorveteria logo ali embaixo. Não é lá grande coisa, mas o sorvete é gelado e a televisão passa a sessão da tarde.
- Meu namorado está esperando no carro. Vim só deixar essa carta. Mesmo assim, foi um bom convite.
- Defina um bom convite.
- Um convite que eu teria aceitado em outras circunstancias.
- Bem, acho que isso que você acabou de me dizer salvou o meu dia.
- (O sorriso mais bonito do ano. Provavelmente tão bonito por estar inalcançável)
- Posso te pedir outra coisa?
- O que?
- Coloca outra do Smashing Pumpkins aí.
- Claro. Toma um fone.
- Ok
terça-feira, 15 de setembro de 2009
castanho

Certa vez amei uma menina toda castanha
de longos, largos, calmos cílios castanhos
de vastas, eternas, ariscas pernas castanhas
certa vez amei uma menina como uma árvore
de frutos tão doces que se estragavam
de cores tão tenras que se faziam morada
casa dos meus dedos de namorado
e abrigo eterno dos meus anseios
dos meus anelos.
Certa vez perdi uma menina da cor da serra
da terra prenhe, da vida inteira como um carmelo
como uma faina, uma roseira, um seio doce
de castanheira. Uma menina da cor dos meus olhos
tão tenra como voltar à própria terra
tão só como a sombra de uma pedra-mó
uma bailarina talhada na madeira rosa
matéria-prima do afeto,
do destino, do sonho, das horas
certa vez aprendi com uma menina castanha
que amor é raíz, caule e noz
é carente de água, de luz, de ar
mas que oferece, na urgência de sua calma
a terra escura que chamamos vida
e a fruta doce que chamamos alma.
sábado, 12 de setembro de 2009
O exemplo de Freiburg

Há um antigo e genial desenho da Disney que retrata algo parecido com o que acontece aqui em Goiânia. O Pateta nos é apresentado como um cidadão pacato e ordeiro que, ao entrar no carro, se transforma no diabo que mordeu o rabo. Em uma sutil diferença na metamorfose realizada, todo bom cidadão goianiense se transmuta em Átila o Huno e parte para a conquista do mundo e/ou destruição da civilização ocidental. Quanto maior e mais caro o carro, mais direitos exclusivos possui o motorista. Direito de avançar sinal, de entrar na contra-mão, de não parar em faixa de pedestre e, numa escalada assustadora de involução, direito de caçar nos bosques reais, de não pagar impostos e de dormir com as esposas dos servos.
Certamente não é como São Paulo ou o Rio, mas talvez seja pior. Em Goiânia, há carros enfiados na alma das pessoas. Pode ser assim também em outros lugares, eu sei, mas se adicionarmos a frota que desfila nas ruas àquela que desfila no imaginário popular goianiense, nos sonhos de consumo e pensamento, seria preciso um estacionamento do tamanho da Rússia para conter tantos veículos.
O sujeito quer um carro importado por que coisas importadas são melhores. Ele compra o maior carro, com o motor mais potente, com o maior número de acessórios e ignora completamente que, no país de origem do veículo, há uma cultura cada vez mais forte de carros menores e ecológicos. Ou seja, compra um carro alemão e se torna ainda mais diferente de um alemão. Ninguém se atenta para o fato de que a maioria dos produtos importados são produzidos exatamente para importação (óbvio não?) e não são usados nos seus países de origem, ou são usados em outras situações. É algo como comprar um taco de beisebol e usá-lo para jogar Bete, achando que se está jogando beisebol.
Então, se vamos importar algo, por que não começamos pelo exemplo de Freiburg? Segundo informações do meu professor de alemão, Freiburg é uma bela cidade da região da Floresta Negra, dona de níveis invejáveis de qualidade de vida. Ali, como em várias outras cidades européias, nota-se um crescimento das ruas e bairros Autofreie, ou livres de carros. São partes da cidade onde apenas se circula a pé, de bicicleta ou de transporte público. O interessante é que, a despeito do que uma análise precipitada poderia supor, a ausência de automóveis gera reflexos positivos na economia local. As pessoas tiram de si um peso enorme de gastos com manutenção e gasolina, as ruas se tornam mais estreitas, dando mais espaço para a construção de lojas e casas e o transporte coletivo ou mesmo a caminhada possibilitam maior contato interpessoal. É tudo uma questão de costume: a vida da maioria das pessoas é regida por leis convencionadas que parecem naturais. Assim, um goianiense acharia o fim do universo ter que ir à padaria do bairro a pé, e uma miséria ir ao trabalho de ônibus. Um alemão de Freiburg acharia exatamente o oposto. E os dois estariam vivos.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
fogo

Confesso que a menina ocupava os cabelos em uma trança e as mãos em um livro. Trazia a trança e o fogo; nunca como num incêndio, mas como num campo de trigo. Como se fossemos todos normandos e o brasil de repente tivesse outono. Por atracar sem defesas, acabei naufrago e prisioneiro – prisioneiro de um campo de trigo. Só a manhã resgataria seus traços dos meus, ou o aconchego quase triste da casa sozinha. Ela de repente brincou com os cabelos e eu pensei em dizer: não brinque com fogo. Confesso que a menina ria do meu despreparo, das minhas mãos que não sustentam nada, do meu pouco tamanho, mas ela perdia em todas as batalhas. Mesmo que fossem quase sempre batalhas de papel, batalhas de festim. Podia chover, foi o que ela disse então,ensolarada, e se apegou a mim como se eu a colhesse. O dia, porém, seguiu a fogo brando, a passos lentos, imitando a forma muito branca daquelas pernas.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Überraschung
