quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Anedota do jardim do éden


Deus: - Adão! Como estás?
Adão: - Levando, Senhor, levando...
Deus: O que te aflige? Já terminastes de nomear todos os seres?
Adão: - É... já sim...
Deus: - Já passeaste pelo jardim do Éden?
Adão: - Já, já...
Deus: - Já nadaste nos lagos celestiais?
Adão: - Também.
Deus: - E nada te empolgou?
Adão: - Olha, Senhor... Tudo é muito bom, de verdade. Coisa bem feita. As aves gorjeiam, os antílopes correm, as flores desabrocham. Uma beleza, mas sabe... tem uma hora que cansa dessa paz, entende?
Deus: - Estás te sentindo solitário, Adão?
Adão: - Não não... solitário não seria a palavra... Não sei... Talvez entediado.Já sei, por que o Senhor não cria a mulher?
Deus: - Não sei não hein, Adão... Dá última vez que ouvi um conselho teu, acabei criando isso aí.
Adão:- O que? O Ornitorrinco? Ah, eu gostei... Mas a mulher seria uma boa idéia, Todo Poderoso! Os animais tem suas parceiras, por que eu não posso ter?
Deus: - Está certo, meu filho. Vou criar a mulher... Para isso, hei de precisar de um braço teu e com ele farei um ser novo e belo que chamarei de...
Adão: - Opa!! Güentaí meu camarada! Que mané braço? Que mane braço? Deixa o meu braço aqui que eu preciso dele! Não, Senhor, faça a mulher de outra coisa.
Deus: - Ok, então tomarei de ti uma perna e com ela farei um novo ser, belo e maravilhoso que chamarei de...
Adão: - Opa, opa opa, Senhor! Mas a perna não! Senhor, eu preciso muito dessa perna!
Deus: - Ai diabo... Digo, ai diacho. Então Adão, tirarei de ti uma costela. E não reclame!
Adão: - Ok. Uma costela é negócio.
Deus: - E dessa costela farei um novo e belo ser, que chamarei de Eva. Mas já te aviso! Vindo da costela, coisa boa não vai sair...

Milênios depois, em uma alguma loja de conveniências de beira de estrada, Marinalva tem um chilique desgraçado e atira carteiras de cigarro em seu recém-marido, Romualdo. Estão voltando de lua-de-mel e ela encontra, na parte obscura da carteira do pobre homem, uma foto 3x4 de uma antiga namorada. A foto está mais amarela que xixi de moleque.
- Você, seu crápula! Seu cachorro! Fica guardando fotos de outra na carteira! Quem é essa mocréia?
- Mas querida, é só uma lembrança da minha adolescência! É a minha primeira namorada! Eu nem lembrava que isso estava aí.
- Nem lembrava, não é! Qual é o nome dessa pistoleira?
- Meu bem, não me lembro! Nós não nos vemos há, não sei, 30 anos!
- E você me dizia que não gostava de loiras!
- Mas ela não é loira. É que a foto está amarelada.
- Então você ainda está apaixonado por ela?
- Meu bem, eu tinha 13 anos...
- Eu devia ter ouvido a minha mãe! Os homens não prestam, não prestam!
E nesse momento, Romualdo olha para o céu ( metaforicamente, por que acima dele está o tubo de ventilação do ar condicionado da loja) e suspira, fracassado:
- Deus, por que você está me punindo, por que?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Lista de pequenas combinações emocionantes


(Por que, como disse o Ted, a vida pode ser vivida com ou sem emoção.)


Ennio Morricone e dia tenso no trabalho

Essa combinação é continuamente testada e aprovada na sala de imprensa e marketing da Agos. Você está em duas ligações esclarecendo dúvidas sobre o aumento do preço da beterraba, com uma terceira ligação na linha e o despertador do celular te lembrando que é preciso terminar o release sobre carrinhos de supermercado. A secretária te pede pela terceira vez para escrever um ofício para a secretaria do Ministério da Pesca, o marketing termina a produção de uma sonora com música sertaneja de fundo, a empregada decide lavar a sala nesse momento e joga um balde de água encima do seu CPU, um testemunha de Jeová toca o interfone, seu chefe chega com três relatórios sobre a diferença entre sacolas plásticas biodegradáveis e reforçadas e a secretária volta,agora te pedindo para ajudar a colocaram uma geladeira dentro do porta-mala de um Chevette. Então você escuta o assobio, o barulho do chocalho de cascavel e a voz em inglês macarrônico: he´s the guy who´s the top of the town, with the restless gun... E logo, você não é mais jornalista, nem José Eduardo, mas Trinity, the top of the west. A primeira coisa a se fazer é atirar no testemunha de Jeová.

Camisas engraçadinhas e encontros profissionais

Trabalhar em um lugar que não te fornece uniforme tem dessas aventuras. O curioso é que todo o resto do corpo de funcionários possui camisetas e calças igualinhas, alinhadas e práticas, menos eu. Isso diz muito a respeito do conceito que se tem por aí de jornalistas, roupas e cabelos. Enfim, você alterna os dias da semana, inventados pelo maldito romano déspota e narigudo, entre velhas camisas de faculdade, roupa social e, vez ou outra, dessas camisas engraçadinhas que você compra achando que vai abafar no showzinho de roque. Pois bem, então surge o chefe te mandando ir entrevistar aquele deputado que vai trabalhar em favor do setor e da associação, um cara muito sério, muito capaz, muito velho e cheio de assessores. E lá vai você, o gravador na mão, lápis e caderneta no bolso, óculos redondinho e, estampado em letras destacadas na camisa: Suck me, I´m famous.

Nutella e sexo

Por que mel, óleos aromáticos, chantilly ou vitamina de morango é coisa de gente ortodoxa.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sua voz na rádio


A rádio universitária sempre me promoveu certa indiferença ressentida. Durante meu período de estudante na UFG, a rádio era uma entidade física, palpável – um local e não uma sintonia. Ficava ali, no meio das árvores do zoológico, e tinha escadas frias, salas vazias e aparelhos velhos. Habitava-a um quê de silencioso, um quê de eco, de domingo pela manhã, de ausência. Eu quase não a freqüentava, enquanto grande parte dos meus colegas se empenhou em seus programas, muito pela experiência que adquiririam e muito pelas horas que constariam no currículo. Apenas ao final do curso, com a corda no pescoço, resolvi participar de um programa esportivo que me garantiria algumas horas e que exigiria de mim só as manhãs de sábado, e de alguns sábados, não de todos.
A indiferença talvez tenha se dado por isso; por essa incompatibilidade de sentimento. O lugar não me agradava. Sentia-o como num misto de consultório odontológico e repartição pública, um lugar cujas paredes e as portas chiavam. Era também curiosa a experiência meio sinestésica de uma rádio se ia mas não se ouvia. Muito bem escondida lá na zona mais cinza da freqüência AM, chiada e difícil de captar, a rádio universitária não fazia parte do meu cotidiano auditivo e nem do de grande parcela daqueles que produziam seus programas. Também havia o fato de eu a ter vinculado fortemente à minha primeira namorada, cujo entusiasmo pela programação e pelas atividades era diametralmente oposto ao entusiasmo pelo nosso namoro ou por mim. Por muito tempo só a idéia de ter que comparecer à Universitária me causava calafrios pela possibilidade de encontrar a moça pelos corredores e salas.
Mas não a desmereço em hipótese alguma, só por que problemas e preferências pessoas me afastaram dela. Na realidade goianiense, a rádio Universitária pode ser considerada um reduto, um oásis de boa música e programas que tentam subir o nível. Ora, as opções FM aqui da capital são dignas de filme trash – sertanejo, evangélicos, cinquentões que se imaginam jovens e o fenômeno fascinante de, num universo tão plural como o da música, você conseguir ouvir a mesma canção sendo tocada ao mesmo tempo em mais da metade das emissoras disponíveis. Foi por isso que dias atrás sintonizei na universitária e peguei o finalzinho de uma seqüência de música clássica. Depois, algumas canções nacionais e, finalmente, uma canção que me chamou muito a atenção. Eu estava no carro, perto das três da tarde, indo sabe-se lá para onde quando me vi repetindo os versos daquela música como se já a tivesse escutado inúmeras vezes. Mas nunca a havia escutado na rádio. Opa, essa música é minha! E era. Eles estavam tocando uma música da minha banda, a Laocoonte. Foi curioso o que eu senti e como eu sorri naquele momento. Olha só, pensei comigo: acabei entrando na rádio universitária por um outro caminho.

Aliás, quem puder me ajudar, vote na minha canção, Conversas com a Meia-Noite, pra ver se ela ganha alguma coisa desse concurso que está acontecendo!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009



Eu sentia que havia algo de transcendente nos programas dominicais de auditório. Todas aquelas mulheres semi-nuas rebolando, os jogos de cartas e as competições escolares, aqueles comediantes chinfrins tendo orgasmos de felicidade, os apresentadores sorridentes, a platéia animada... tinha que ter alguma coisa filosófica naquilo tudo e só eu ainda não era capaz de perceber. Mas a verdade, meus amigos, veio desabar sobre minha cabeça como um piano de desenho animado. Caiu estrondosa em uma tarde de domingo, às vistas do Domingo Legal e do novo programa da Record: Era claro! Claro como uma islandesa anti-social! Tudo não passava de uma metáfora!

Não há no universo inteiro analogia mais perfeita que a do Programa Dominical de Auditório e a mente do brasileiro. Nada simula com maior precisão o que se passa na parte escura dos meus compatriotas que um auditório bregamente decorado, um apresentador de terno e dezenas de pessoas semi-famosas enfileiradas diante da câmera, dançando o tempo todo e participando de gincanas que envolvem dinheiro, casa própria ou jatinhos de água. É a metáfora perfeita.

As atrações oscilam entre dois pólos: o apelo incessante pelo instinto ou a demanda irritante pelo sentimentalismo. Da mesma forma, o brasileiro médio (sim, estou generalizando. Não, não vou me desculpar) imagina que o bom da vida é tudo que atenda ao instinto imediato – mulheres, cerveja, comida, futebol – e também tem certeza de que bondade e altruísmo é se emocionar quando gente pobre ganha um alisamento de cabelo ou revê o pai bêbado que não via há dez anos.

Tenho pensado muito em como nós temos a tendência de reduzir as possibilidades mentais a um conjunto de quatro ou cinco pensamentos. Não dá para esclarecer bem o que eu quero dizer num blog, mas a idéia seria a seguinte: de tantas coisas que acontecem e que existem para serem pensadas, as pessoas vão escolhendo naturalmente uma ou outra que mais lhes interessa, ou que sejam mais fáceis, e descartando as demais. Essa peneiração não parece, entretanto, ser consciente, mas ao léu, a deriva. E terminamos pois, com nossa mente aos moldes da programação da tv aberta em dia de domingo: futebol, música religiosa, futebol, mulheres de biquíni, futebol e mulheres de biquíni em banheiras. Até que a segunda chegue e nos preocupe de novo com ganhar dinheiro e trabalhar. Mas, além disso, há muito pouco universo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Hasta siempre!


inspirado em palavras da minha irmã para o Simpósio Juvenil de Logosofia. Nada do que eu escreva, porém, será digno do que foi vivido.


Muito grato pela chance de estar perto de quem me é caro. Grato pelo sorriso oportuno e pelo abraço, por tudo aquilo que perdura e é eterno. Grato pela amizade tecida em anos, demorada, cuidadosa, de se sentar à mesa e conversar por horas. Por se falar do afeto, por se falar da paz, por se falar da luta, grato pela candura na conduta, pela delicadeza. Muito grato pelos passos dados juntos, pelo aperto de mão especial, que nos reconhece e nos enlaça. Grato pela graça dos mais velhos, pelo auxílio dos mais novos, pelo esforço de todos. Grato por cada chocolate encima da cama, por cada fim de semana construindo pastas e cartas e cartazes. Grato pelas horas de viagem, pelo exemplo e pela prática. Grato por saber que o esforço nos une, que o estudo nos dignifica, que a mudança nos acompanha. Grato pelos novos amigos de sempre, pelos eternos companheiros. Muito grato por poder dividir, por não estar sozinho, por não estar parado. Grato pelo movimento; dos lábios num sorriso, dos dedos entre palavras, da mente, da alma, do espírito. Grato pela beleza e pelo sotaque, pelas histórias e pelos projetos. Por tudo que é bom e é sincero, por cada um que soube fazer desses poucos dias uma vida inteira. A tudo isso e ao que não se traduz – Muito grato.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Diálogo de uma chuva


- aqui chove bem.
- aqui nem tanto.
- não chove?
- chove mau.
- qual o problema?poucas gotas?
- antes fosse. gotas demais.
- molharia a bobos e espertos?
- essa chuva? Só molharia pessoas medianas.
- aqui molharia a todos.
- a todos? Bobos e espertos, altos e magros, carecas e cabeludos? Presidentes de países árabes?
- a todos, menos às bailarinas.
- aqui só se fossem bailarinas medianas.
- aqui chove há uns poucos minutos.
- aqui há horas
- e já há estragos?
- tremendos.
- casas partidas? carros afogados?
- não. Poemas.
-dos trágicos? Longos e áridos?
- antes fossem. Dos patéticos. Curtos e úmidos.
- então é melhor ir embora.
- e como? não quero me molhar
- não vai se molhar.
- é? Acha que não sou uma menina mediana?
- não. Acho que é uma bailarina.

sábado, 3 de outubro de 2009

- Qual sua espécie? - Sou ser humano não praticante.


- Eu sempre me perguntei por que, em filmes de alienígena, os ETs se comportam como seres humanos? Quero dizer, se nós tivéssemos naves espaciais e tecnologia suficiente para nos espalhar pelo universo, como vocês acham que nos comportariamos ao chegar em outros planetas habitados? A criatividade dos roteiristas é capaz do paradoxo de inventar raças alienígenas que avançaram absurdamente no aspecto tecnológico e que se comportam como a torcida do Vila Nova em jogo no Serra Dourada.

- Outra coisa: a ciência se vira e revira tentando nos vincular aos macacos. Tem um fetiche mórbido, meio masoquista, de afirmar que, sim, nós somos iguaizinhos aos orangotangos, aos gafanhotos e aos vermes. Todos viemos da mesma ameba primordial, dizem os cientistas com orgulho, como se não estivessem se ofendendo. Do outro lado, os religiosos adoram, amam, falar que somos servos e súditos de Deus. Os cristãos são os mais curiosos: dizem que os seres humanos são filhos do Divino, mas isso não significa que sejam especiais, não não! Significa que são pecadores sujos. E ovelhas. Somos ovelhas. Os evangélicos inclusive chamam seus ministros de pastores. Rapaz, será que ninguém nunca pára pra pensar por que um pastor cria ovelhas? Quero dizer... qual é a virtude em seguir um cara que vai te escalpelar, usar seu pelo e provavelmente te matar e servir no almoço? Então fica assim: De um lado, somos parentes distantes de macacos, do outro somos ovelhas.

- E tem aquela história do instinto. Os intelectuais, psicólogos e entendidos do assunto chafurdam nas teorias que nos tornam escravos ou tributários exclusivos dos nossos desejos. Entendem, claro, nossos desejos como manifestações puras do instinto. Temos desejo de transar com qualquer coisa, desejo de matar todo mundo e desejo de nos matar, não necessariamente nessa ordem e possivelmente ao mesmo tempo. Mas não se engane: se você por acaso deseja o bem para o seu semelhante, não é por outra coisa senão por uma manifestação indireta do seu instinto de sobrevivência. Afinal, você só faz o bem por que pensa egoisticamente na retribuição. Como um cachorro que dá a pata em troca de uma lingüiça. Sentimentos nobres como o amor são, na verdade, apenas resultado de combinações de hormônios e visam, exclusivamente, atender a carências sexuais e instintivas. Cara, isso pode até explicar shows de pagode, partidas de futebol ou novelas das oito. Mas como atribuir Fausto, do Goethe, Sagarana, do Rosa, a Capela Sistina, Romeu e Julieta, o Parthenon, apenas a uma sopa de hormônios e ao desejo reprimido de transar com cabritos e parentes?