terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Músicas para viradas



Para voltas por cima, revoluções, gols aos 45 minutos do segundo tempo, renascimentos no terceiro dia, acordar de coma e réveillons

obs: certo, eu não sei fazer links decentes...ficaria grato se alguém pudesse me ajudar com isso.

1. Crash Test Dummies, my own sunrise

Crash Test é quase uma instituição para mim. Uma das bandas que delinearam minha adolescência e que parecem falar diretamente comigo. Sabe quando uma banda consegue acertar em todos os detalhes, dos arranjos e backing vocals até o jeito particularmente brega das roupas? Pois é. My own sunrise é a música perfeita para olhar alvoreceres da sacada de prédios enquanto as pessoas festejam em outros cômodos.

http://www.youtube.com/watch?v=ahtFJvEcDk8


2. The weepies – gotta have you

Perfeito para esperar renascimento de messias mortos ou o café em uma lanchonete de madrugada. Funciona muito bem para fazer promessas de fim de ano de arranjar namoradas específicas, mas só as específicas. Aquelas que você quer desde a primeira vez que fez promessas de fim de ano, algo próximo de 1996.

http://www.youtube.com/watch?v=AtBD750Fsz4

3.Stereophonics – a thousand trees

A thousand trees é uma música muito legal. Não são muitas músicas em que falam sobre fofoca. Alem disso, o refrão é muito inteligente.Boa para vinganças de fim de ano e para desfilar com a nova namorada na frente da antiga em festas de réveillon.

http://www.youtube.com/watch?v=qhBrOwlPz8U

4.Element of crime – Kavallerie

Só escute se seu ano foi uma lástima e as chances do próximo ser pior sejam aviltantes. Ideal para passar de ano bêbado, solteiro e gordo, mas com a cabeça erguida e xingando o garçom de plebe. Tente levantar a caneca de chope na segunda estrofe, quando ele canta: “ Você mantém seu lugar no bar como um verdadeiro herói. O mundo inteiro contra um, isso não é justo! E a Cavalaria de Salvação que não virá mais hoje”.

http://www.youtube.com/watch?v=VLfTQ4N7bMs

5. Pato Fu – Tribunal das causas realmente pequenas

Só para os otimistas e afins.

http://www.youtube.com/watch?v=e2_O7PhDpxg

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

As doações de fim de ano (baseado em fatos reais)


Cena 1

Um supermercado às escuras. Gritos abafados. Em um canto, quatro brutamontes da Associação Goiana de Supermercados encantoam um supermercadista assustado. O diálogo:
- Vamos! Onde estão os brinquedos para a doação de natal?
- Aqui ! Aqui!
- Dois helicópteros de brinquedo sem hélice e um quilo de arroz? O que você acha? Que estamos de brincadeira? Tá achando a gente com cara de rena?
- É tudo que eu tenho! O helicóptero era do meu próprio filho!
- O chefe não vai gostar nada disso, Bob.
- É verdade, Charlie. A coisa vai ficar preta por aqui
- Por favor! A crise foi dura, o dinheiro está escasso.
- Nós vamos levar. Mas é melhor você ter algo mais expressivo para as doações de inícios de aulas.

Cena 2

Uma pequena caixa chega pelo correio à sede da Associação de Supermercados, aos mandos de uma grande rede supermercadista. A caixa está endereçada ao chefe. Há um bilhete curto: “ Doações desse ano. Feliz Natal”.
- São as doações daquela grande loja de supermercados?
- Sim.
- Essa caixinha?
- Ano passado eles não enviaram nada. Estão melhorando.
- O que tem dentro?
- Dois ovos de páscoa. Quebrados.

Cena 3

O chefe chega na sala do jornalista. Está abatido. Desaba na cadeira e diz:
- Um helicóptero sem hélice, um saco de arroz e dois ovos de páscoa. Essas foram as doações para a campanha de natal desse ano. Foi um sucesso em relação ao ano passado.
- Certo, chefe.
- Eu quero que você junte alguns pacotes da dispensa e tire uma foto de perto. E faça um cartão de natal.
- Chefe, um cartão de natal? Eu nem comemoro o natal.
- Não tem problema. Escreva algo bonito e original.
- Como o que?
- Algo como: “ Que o espírito natalina esteja iluminando sua família nessa noite de festas e alegria. Feliz Natal”

Cena 4

O publicitário chega com uma caixa cheia de brinquedos. Aproxima-se do jornalista e diz:
- Aqui estão as doações daquela outra grande rede de supermercados.
- Essa é bem maior. Olha só, tem espadas, metralhadoras de brinquedo, revolveres de brinquedo, adagas de plástico, bonecos de soldadinhos. Parece que eles tiveram mais sucesso na arrecadação
- Claro, eles fizeram uma campanha de marketing agressiva.
- Ah, é? E qual era o logo da campanha?
- Campanha de desarmamento infantil.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Feliz Natal


Na madrugada de ontem assisti ao filme Joyeux Nöel, ou Feliz Natal, na versão portuguesa. Há algum tempo eu não me animo a comentar nada sobre filmes. A gente acaba se cansando de ter que pisar em ovos para dizer que um filme é bom ou ruim, por que há que se considerar o olhar domesticado, o melodrama hollywoodiano, o cinema de ruptura e etc. Há que se qualificar o gosto, medir a intensidade da fruição, e transformar qualquer coisa em juízo de valor. Por isso, quando saí da faculdade, prometi a mim mesmo que a única qualificação sincera que me valeria quanto a cinema seria: gostei ou não gostei.


Melodramas a parte, eu gostei muito de Feliz Natal. Gostei principalmente por que ele se empenha em destruir grandes lugares-comuns no nosso bestiário cultural. E espezinhar uma série de clichês menores que adoramos revisitar insistentemente.

A história se passa em 1914, durante a Primeira Guerra. Em algum lugar da França, exércitos alemães, franceses e escoceses se entrincheiram mas, na noite de Natal, resolvem oficializar um cessar-fogo. Os soldados se confraternizam e vão pouco a pouco destruindo a imagem não-humana do inimigo. Uma imagem que foi construída por pessoas que não estão no front, por instituições que se interessam mais na guerra que nos soldados. Ao dar aos personagens de todos os lados características humanas, pequenos dramas e grandes projetos, o filme torna lentamente a idéia de guerra uma incongruência.E isso não apenas para os soldados, mas para os espectadores. Como continuar a guerra? Por que continuá-la? Se as semelhanças são muito maiores que as diferenças? Se podemos beber juntos, jogar futebol juntos, se nos encantamos com a música juntos? Qual é mesmo o motivo de se estar considerando o inimigo como uma entidade mecânica, inumana, extraterrestre?

O primeiro pequeno vício que o filme trata de execrar é o de vincular alemães em guerra ao nazismo. Nada de suásticas, nada de personificações do Mal dissecadas em seus motivos ou falta deles. O que temos é um exército pré-hitlerista comandado por um judeu. Mas o grande lugar-comum que o filme faz desmoronar de maneira sutil é o do próprio filme de guerra. Feliz Natal é um filme de guerra que não precisa se amparar na muleta da violência e na idéia estranha de criticar a guerra mostrando sangue e pessoas sendo mutiladas. Um filme de guerra sem sangue. Já dá algo que falar.

Feliz natal é ainda um filme de natal sem nenhum tipo de menção a coisas como “espírito de natal”, “papai Noel”, e sem se amparar na outra muleta famosa que é a de apelar para eventos sobrenaturais que justifiquem algum sentimento natalino. O elemento religioso aparece constantemente, mas nunca vinculado a nenhuma religião, nem a um Deus que possa intervir magicamente na vida das pessoas. Quando o tenor alemão canta Noite Feliz de sua trincheira, e é acompanhado pelas gaitas de fole dos escoceses, todos os soldados se emocionam não com a história de Jesus, ou com o caráter cristão da letra, cantada em alemão, mas com a música em si. É a música, essa expressão humana que transcende o material, e a tristeza da situação sem sentido em que se encontram que realmente importa para aqueles homens. Quando o padre escocês realiza uma missa, rezando em latim, não é a liturgia ou as palavras sagradas que encantam, mas a verdade que existe em jovens que deixaram suas armas para realizar algo juntos, algo de belo e de sensível. Em determinado momento, o capitão judeu alemão fala ao padre que o Natal não representa nada para ele mas que aquele momento marcou sua vida para sempre. A cena final do padre escocês também vale muito a pena de ser vista.

Nenhuma diferença construída pela civilização foi capaz de negar a humanidade comum daqueles homens. Nem a guerra, nem a religião, nem a língua, nem as nações. O filme Feliz Natal me encantou por mostrar que o homem teve a capacidade de criar, ao longo da história, coisas muito ruins e coisas muito boas. Coisas que contribuíram para sua divisão e para a ilusão de que a diferença é perniciosa. E coisas que, apesar de tudo, continuam afirmando que a nossa maior semelhança é o fato de cada um ser único.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

É preciso falar contra



Como não poderíamos deixar de perceber, as igrejas protestantes adotam uma postura bastante incisiva em Goiânia e no Brasil. Elas souberam adaptar com sucesso técnicas de publicidade e marketing à pregação religiosa, organizaram suas unidades segundo regras de mercado e criaram uma ideologia agressiva de divulgação e auto-promoção. Os resultados têm sido muito satisfatórios, se considerarmos o crescimento dos praticantes e sua ascensão cada vez mais significativa às esferas de poder político e financeiro.

Os evangélicos têm muito orgulho de se considerarem como tais e se empenham em defender seu ponto de vista. As grandes massas de crentes se deixam organizar e liderar pelas mentes pensantes por trás do crescimento das igrejas, ganhando força e precisão em suas ações. Por isso crescem. Por isso alcançam o poder. Por outro lado, aqueles que criticam o protestantismo moderno são, em sua maioria, desorganizados, desmotivados e passivos. Quase sempre morrem de medo de parecer intolerantes ou de ferir as sagradas leis democráticas de liberdade de culto e expressão. Enquanto isso, os evangélicos fazem ótimo uso dessas mesmas leis, bradando e empunhando suas bandeiras.

Pois bem, é preciso falar contra. Tolerar não é concordar. A democracia nos dá a liberdade de defender nossas idéias e de, inclusive, atacar as idéias das quais discordamos. Não é apedrejando ou queimando pessoas que se chega a algum lugar, tampouco é apenas resmungando diante de igrejas de fundo de quintal que abusam do gritaria ou sendo sadicamente descortês com testemunhas de Jeová aos domingos. É preciso se posicionar contra e argumentar.

Eu sou contra o protestantismo. Já não quero mais cair na desculpa cíclica de que todos são livres para escolher a religião que quiserem e que é preciso tolerar e que, pelo menos, essas pessoas estão aceitando Jesus no coração e etc. Sou tão livre quanto qualquer um e por isso digo: não acho certo, acho inclusive perigoso, não concordo com as religiões e não acredito em Jesus Cristo. Sou contra o protestantismo por que ele tem demonstrado uma linha de ação e pensamento que flerta tanto com correntes fundamentalistas quanto com movimentos fascistas. A forma como as mentes pensantes desses grupos manipulam e dominam as massas é irresponsável e criminosa. Estão plantando problemas sérios para um futuro próximo.

Sou contra o protestantismo por que experimento, no meu dia-a-dia, a falibilidade de sua doutrina. Fosse especulação desprovida de base, eu não estaria dizendo. Mas todos os dias, em todos os cantos, eu presencio pessoas que defendem uma coisa e fazem outra; que se embrulham de valores postiços e continuam tão erradas quanto antes. Pessoas que, por falta de algo melhor em que se apoiar, castigam sua inteligência e sua sensibilidade acreditando em argumentos fantasiosos e fajutos. Pessoas que são convidadas a fugir da realidade e a aceitar uma série de imposições sem consistência nem comprovação.

Sou contra o protestantismo por que ele está nos encaminhando por uma senda que já foi usada – por um caminho que já foi percorrido. O caminho da Fé tem sido trilhado há dois mil anos no Ocidente. Essa tal Fé, que se apregoa uma virtude espiritual do ser humano, sempre se vinculou perfeitamente a interesses muito materiais: A Fé justificou a Idade Média, a Inquisição, as Cruzadas, a escravidão negra, o massacre dos índios e etc. Todos os homens que participaram desses episódios tristes da nossa História tinham três coisas em comum com os evangélicos de hoje: uma bíblia debaixo do braço, a certeza de que estavam certos e uma dificuldade tremenda em diferenciar o que realmente é espiritual do que é material.

Sou contra o protestantismo por que vivemos numa sociedade de massa em um momento delicado da História Humana. A massa precisa de conhecimento e não de cabresto. Aqueles que pensam dentro do protestantismo precisam retomar o juízo, precisam ser mais conscientes da seriedade dos seus atos. É necessário aprender com nossos erros passados. Que as guerras e regimes terríveis pelos quais passamos nos leguem mais do que filmes de Hollywood e best-sellers. Quantos exemplos não temos de que privar a massa do conhecimento e manipulá-la em nome de ideologias, crenças ou doutrinas, só causa problemas? Será preciso mais 2 mil anos de guerras, intolerância e estupidez para entender que livros sagrados vêm e vão, assim como os deuses? Estamos em um limiar histórico: ou nos empenhamos na difícil tarefa de retirar os homens da condição de massa ou permaneceremos todos a mercê de grandes quantidades de seres humanos totalmente inconscientes e sem rumo.

Enfim, sou contra o protestantismo por que ele é a repetição moderna de um erro muito antigo.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Silvio Berlusconi


Silvio Berlusconi foi agredido recentemente em uma aparição pública. Seu agressor arremessou contra ele uma miniatura de ferro do Duomo, a catedral de Milão. Em pouco tempo, o agressor foi descrito por alguns jornais como desequilibrado mental e, em outros, apareceu se desculpando pela ofensa. Poucas pessoas perceberam a genialidade do ato. Afinal, não foi um soco, não foi um pedaço de pedra, nem uma dedada no olho: foi um arremesso da miniatura da catedral de Milão! Genial!
A Itália nos legou muitas coisas. O fluxo de herança cultural e genética da península para cá é surpreendente: começou com o latim, passou pelo Direito Romano, pela mania de colunas em órgãos públicos, até chegar na pizza de calabresa e na tradição de falar alto e se esbofetear em festas de família. Pois bem: a última notícia das terras do Lácio bem que poderia virar moda...

Ontem, Paulo Maluf foi agredido em aparição pública. Seu agressor arremessou contra ele uma miniatura de bronze da Catedral da Sé. Maluf sofreu escoriações leves no nariz.

Em Brasília, Arruda consegue desviar de miniatura de latão do Memorial JK mas acaba acertado na nuca por miniatura de alumínio do Senado.

Íris Rezende leva miniatura do Monumento das Três Raças na testa

Bush escapou do sapato no Oriente Médio, mas não foi tão perspicaz contra a cópia de argila do Alamo que lhe arrancou dois dentes.

Atentado contra a vida de Kim Jong II, ditador da coréia do Norte. Manifestante arremessou contra ele uma miniatura de uma estátua dele mesmo. O cabelo da estátua era de arame farpado.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dona Gertrudes I


Esse é um texto antigo e longo. Resolvi postá-lo para não deixá-lo mofando nas gavetas virtuais
A dona Gertrudes é a senhora rosada que mora na última casinha da última rua da Vila Monticelli. Como toda senhora rosada que se preze, ela possui gerânios na janela, uma horta com cebolinha no canto do quintal e um gato velho e gordo chamado Afonso Mariano. E exatamente como toda boa senhora rosada ciente de sua rosada condição, a Dona Gertrudes possui uma opinião sobre tudo, do namorico da vizinha à crise financeira internacional, da nova tendência de moda indiana ao preço da mandioca na feira. Há porém, uma diferença que precisa ser considerada. Na altura de seus 86 anos, Dona Gertrudes já viveu o bastante para chegar a certas conclusões definitivas e não se influenciar facilmente pela mudança do mundo ou pela mentalidade leviana das novas gerações. Enquanto a maior parte de suas amigas velhinhas acha mesmo que o mundo anda uma pouca vergonha, que as mocinhas novas não tem juízo e que bom mesmo é fazer engenharia ou trabalhar para o governo, a Dona Gertrudes alcançou padrões extremos de conservadorismo. A boa e rosada velhinha defende a tese de que todas as pessoas deveriam morrer e o mundo ser habitado novamente pela sua prole.
Por ser parente distante do primo de um neto da tia falecida de Dona Gertrudes, e por me chamar José, que é o nome de seu primogênito, seu trato comigo beira o diplomático. Graças a isso consegui me aproximar de sua bucólica residência e, milagre dos milagres, ser convidado para limpar o quintal, por um preço absurdamente injusto. Foi assim que pude travar as entrevistas que agora tentarei relatar com o máximo de precisão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Conclusões parciais sobre aspectos de pouca relevância


- Você está em um engarrafamento. À sua frente, há um carro rebaixado, com som auto-motivo ligado no máximo e um baixinho de óculos escuros com o braço malhado para fora, mexendo com todas as criaturas do sexo feminino que passem na calçada, incluindo pombos. A probabilidade de que a próxima música que ele vai escolher para tocar seja Love of my life, do Queen é matematicamente igual à de você descobrir que sua namorada é na verdade a deusa nórdica das morsas.

- Depois de acaloradas discussões entre meus amigos, chegamos à conclusão de que a única maneira plausível de uma mulher vestir um colã é por meio da desmaterialização parcial do corpo. Ainda sobre esse tema, as pesquisas revelam: quanto mais curta a saia, mais tapada a dona. (é mentira, mas eu não podia perder o trocadilho).

- não adianta você perguntar para o Weyslyson, o filho da empregada da casa da sua avó, se o pai dele se chama Weysly. Ele não só não vai entender a piada como também vai responder que o pai se chama Osvaldo. Como também não adianta tentar explicar a um estudante do primeiro ano de medicina a diferença entre um RP e um Publicitário. Ele não só não vai entender como muito provavelmente vai responder coisas como: “ mas você precisa de uma faculdade pra isso?”

- depois de aguerridos estudos, cheguei à conclusão de que o único motivo que leva as pessoas a gostar de futebol é a regra do impedimento. Todo o resto não faz o mínimo sentido.

- se o seu colega, numa conversa de bar, cita três autores diferentes em uma mesma frase, a probabilidade de que o que ele esteja dizendo não tenha a mínima importância é igual à de que você vai acabar tendo que dar-lhe uma carona de volta para casa. Ainda nesse tema, a chance de um cara que utiliza a expressão “Hermenêutica do discurso” mais de duas vezes ao mês se tornar um frustrado emocional é exatamente igual à chance de o próximo dia depois da quinta ser sexta.



- é fascinante como palavras como " probabilidade", " chance" e " conclusão" dão um ar de objetividade científica a qualquer afirmativa preconceituosa. A probabilidade de que pessoas utilizem discursos objetivos para expressar opiniões subjetivas é tão grande que só podemos chegar à conclusão de que não existe nada mais subjetivo que a objetividade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quatro comentários sobre a tarde



I


não quis das horas
outra coisa além do espanto
lá, atrás da aurora em revoada
ainda existe um jardim
mas logo ele também se espalha


não quis da tarde
mais que telhados enegrecidos
e pessoas que se despedem
sobre um céu que, ausente, morre
a prova azul de minhas falhas


II


foi um dia longo, ocaso
largo como um drakkar
perfeitamente explicável
por conta, planilha
remuneração
foi um dia ou um sermão?
não sei, estive ausente
o dia inteiro, estive longe
um dia longo, ocaso
quase sempre é carente


agora quero apenas
que a tarde mastigue
a silhueta de prédios e asas
das praças e das igrejas
e a volta encurvada
dos homens para casa

III


se finalmente me encontrares
na esquina do liceu
no mercado central, na feira
com flores no lugar das mãos
e pernas maiores que a primavera
por favor não te assustes
acaso estive a tarde inteira
tão cinza e pouco humano
que quase me esqueci de mim

e agora é preciso um tanto
de circo eum tanto de pranto

para reaver
meus olhos de bijuteria
meus pulsos vazados de luz
a fina, quase imperceptível
pele de uma certa alegria
com flores no lugar dos dentes
e pernas maiores que a noite e o dia


IV


só a tarde sabemos dos ossos
pois a tarde é um órgão humano
azul em seu tecido, vermelho no que secreta
entardecer é virar o dia ao avesso
com as tripas para fora
e vesti-lo sobre a cabeça


só à tarde é que vemos o pus
a morte mesmo é uma deusa vespertina
e cada dente que o dia expele
acaba fincado no céu, preso por veias
formando a bocarra fatal
do monstro que nos espera