segunda-feira, 28 de março de 2011

A cabeça e o mundo


A cabeça da gente é brincalhona, não há que levá-la muito a sério. Ela vive por um mal-feito e morre por uma piada. Passa o tempo achando verdade onde há apenas suposição e tecendo suposição onde a verdade escancara. Tudo malandragem da cabeça da gente. No fundo, acontece que ela nunca aceita estar errada. A cabeça da gente tem o rei no umbigo.

Por exemplo, uma das grandes frustrações da cabeça é que o mundo não cabe nela. Não adianta abrir bem a boca até deslocar a mandíbula, ou abrir tanto os olhos que as pálpebras descolem. Não cabe, ponto. Milhares de cabeças cabem no mundo, mas o mundo sozinho ocupa todas elas e ainda sobra. A cabeça não aceita isso! Ora, onde já se viu? Não é do feitio dela, sua natureza implica - a cabeça quer sempre ter razão. Mas o que é razão senão racionar? Dividir, partir, pegar pedacinhos? Então a cabeça corta um pedacinho do mundo, cerca com arame farpado, prega uma bandeira no meio e diz: pronto, eis aqui o mundo. E a gente acredita na danada. Conversa fiada! Tudo esperteza da cabeça da gente. Ela dá risada. Está se divertindo horrores. O hobby favorito da cabeça da gente é esse: tomar a parte pelo todo e o todo pela parte.

Mas podemos culpá-la? Por ser redonda e redundante? Por ser limitada e limitante? Podemos condená-la à morte? Levá-la à guilhotina e, vapt, perdermos a cabeça? Um peso a menos, no sentido literal e figurado. Se com ela afirmamos a nossa verdade e atacamos a verdade dos outros, sem ela, não teríamos nem verdade, nem outros, nem nós mesmos. Se com ela temos dificuldade de saber o mundo, sem ela, para que saberíamos? Aí está a grande sacada! E a cabeça bate palmas (figurativas, por óbvio). Posa de bonita, desfila com o peito inflado: porque a cabeça pode até ficar vazia sem o mundo, mas o mundo, sem a cabeça, não é nada. Mas claro, isso não passa de malandragem da cabeça da gente.

4 comentários:

  1. me lembrou um dos personagens do livro que leio. ele é somente voz. o corpo desistiu dele e vive uma vida sem a voz.

    interessante. o/

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  2. Ia fazer uma piada sobre esse ser um papo muito cabeça, mas minha dignidade falou mais alto

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  3. Victor Hugo de Carvalho Caldas14 de abril de 2011 22:55

    Ainda bem que aquele peixe foi banido

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pode falar, eu não estou ouvindo