terça-feira, 16 de março de 2010

Eu estava tentando crescer


Primeiro ano

- Pedro, se você soubesse, se tivesse ido também! Toda aquela gente, o pessoal reunido, as idéias, a movimentação! O Antonio, lembra do Antonio?, então, o Antonio falou tanta coisa. Falou da mediocridade do sistema educacional, da dificuldade da nossa cultura se expressar, falou da opressão sobre as minorias. Ai, Pedro, e você em casa! Depois veio o pessoal do movimento gay, o Afonso, a Judite. Subiram no palco e quebraram geral! A vida para eles é barra, é corda pra se enforcar, e ninguém diz nada, ninguém faz nada. Daí eu me senti realmente na universidade! Finalmente o sangue da mudança nas veias, aquilo que eu esperava mesmo! Não essa modorra de sala de aula, de ficar debruçado em livros que ninguém lê, de passar horas filosofando a toa. Pedro, Pedro, a gente precisa agir! É botar a mão na massa, pegar a bandeira, fazer passeata! Estamos organizando uma mobilização geral pelo passe livre estudantil. Depois fomos para o bar, e o Antonio mais um pessoal que está vendo a possibilidade de fazer uma viagem pela América Latina! Vai ser o máximo, Pedro! Peru, Bolívia, nada de rota turística, nada de souvennier! Mochila nas costas e idéias na cabeça! Ai, Pedro, e você preocupado com prova?


Segundo ano


- Não, Pedro, não rola cinema no fim de semana. Vai ter uma festinha lá na casa do Antonio. Ele mora numa kit lá no centro sabe? Ninguém para atazanar, o som pode ficar alto a noite toda. Se quiser ir tudo bem, mas não é sua turma né. Aliás, nem sei que turma é a sua. Ah, vai o Afonso, a Judite, aquele cineasta lá, o Beltrão. É, que fez os curtas para o festival, sabe? Só por que ele não ganhou prêmio não significa que não seja cineasta. Claro, e pra você cineasta é só o cara do filme que está em cartaz. Tão pequeno-burguês você, Pedro. Você é o tipo de cara que vai acabar a vida numa repartição pública, engordando feliz e sonhando com carros importados. Eu vou de carona com umas meninas, vamos passar primeiro pra comprar umas bebidas, uns cigarros. Não, mas os meninos fumam. Daí vamos discutir sobre a viagem pela América Latina. A passeata? Uai, aconteceu já, você não ficou sabendo? Você não esteve na faculdade nesses últimos dias? Vamos organizar outra, o movimento não pode parar.


Terceiro ano


- Peeeedro, ahahah! O que? Não, não, não estou bêbada! Ahahahahahahh, esperaí, tem muito barulho aqui, espera! Faz assim, me liga depois! Onde eu estou? Ahahahah! Peraí, o Antonio quer falar com você! Não, ele não quer! Ahhahah, ele é do seu grupo de trabalho? Ele quer saber o tema, ahahha! Eu já te disse onde estou! Não disse? Estamos aqui na casa do Antônio. Eu, o Afonso, o Beltrão, a Judite! Não, Pedro, eu não estou bêbada! E qual o problema de estar? Estou só levemente sensual, ahahaha! Amanhã? Já é amanhã ? Nossa, tinha me esquecido hein. Faz assim, me lembra na hora! Mas não convida aquele pessoal da tarde não, não gosto deles. Ninguém gosta deles, bando de pseudo-intelectuais. Uns caras que nem sabem quem foi Kerouac, que nunca leram o Llosa. Verdade seja dita, Pedro, seus amigos só pensam em coisas. Tem que abstrair – o mundo é maior que tudo, sabe? E o inferno, o inferno são os outros. Ahahahah, esperai, o Beltrão está dançando com um chapéu de mexicano, esperai...


Quarto ano


- Oi, por favor, o Pedro. Ah, oi Pedro. Tudo bem? Muito tempo, né? Você nunca mais ligou. Anda tudo bem, na correria, sabe? O estágio está me matando e preciso muito de dinheiro. O Antonio? Ah, nem sei mais. Deve estar dando aquelas festinhas ridículas na casa dele até hoje. Bando de calouros eternos, nunca vão sair do lugar... Pois é, agora estou pensando em concurso público. A gente precisa de estabilidade né, de ter um pé de meia. E sem grana, não dá pra financiar o carro e a liberdade, eheheh. Não sei o que vai ser depois que eu me formar. Agora vejo como errei de curso, de rumo, de lugar. Só quero acabar com isso logo e nunca mais voltar. Fiquei sabendo que você andou viajando para a Europa hein. Velho Mundo... tenho muita vontade de conhecer! O dinheiro aí está fácil, imagino! Mas você sempre foi muito esforçado, né Pedro. E eu sempre admirei isso em você, sua garra, seu pé no chão. Sempre me atraiu muito... Vai viajar de novo mês que vem? Que legal! Com quem? Com a namorada. Tá certo, tem que ser assim mesmo. Bom, a gente se fala qualquer dia. Mantenha contato, tá?

12 comentários:

  1. E no final era tudo uma cilada, Pedro...

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  2. "eternos calouros"... Tem gente que é assim mesmo depois que se forma.

    Boa alusão aos movimentos de nomes feios e sentido algum.

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  3. E ainda tem o quinto ano... Não quero nem comentar...

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  4. Leila, esse foi seu último lamúrio antes do suicídio?

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  5. Mas e aí, você é o Pedro ou a Raíssa? (eu sei que você não falou o nome dela, mas na minha cabeça todas essas meninas se chamam Raíssa).

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  6. Diógenes Persival17 de março de 2010 05:49

    Boa parte não sai do 1º ano. Passam 8 anos no 1º ano! hahahahaha

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  7. a velha história da grama do vizinho que é sempre mais verde.

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  8. Você me fez acreditar em que finalmente a liberdade, anarquia e revolução iriam sair por cima pelo menos uma vez na vida. Mas as leis do sistema continuam inabaláveis. Me informei de seu blog atravez de sua irma, parabéns, você é um exelente escritor! Um dia eu chego lá!

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pode falar, eu não estou ouvindo