
Sei que o tal beija-flor causou comoção geral na escolinha. O bicho ficou preso no telhado e eu fui chamado, por falta de pessoa mais capacitada, para resolver o problema. Acontece que a criaturinha não conseguia sair de lá por nada. Ela havia voado mais alto que o normal para sua espécie e agora não conseguia descer. Precisava apenas voar para baixo, para longe da quina do cômodo, mas por algum motivo obscuro não o fazia. Continuava indo para cima e batendo nas telhas. Rumava para a direita, para a esquerda, mas sempre para cima. Morreria de cansaço e burrice.
Não sei como terminou a história do beija-flor-jumento, empacado em sua própria incapacidade de mudar de rumo. Quando fui embora ele ainda estava lá, desesperado, com sua política de para o alto e avante, e que se danem as variantes . Aquilo me fez pensar muito sobre as pessoas e sua tendência a não enxergar possibilidades. Afinal, não há material mais maleável do que aquele do que a vida é feita, tal como não há criatura mais adaptável que o ser humano. O que ocorre, porém, é que a maioria das pessoas parece não perceber que a vida que leva não passa de uma série de possibilidades escolhidas, em detrimento de outras que foram descartadas. A tendência geral é pensar que a vida é assim como sempre foi e como deveria ser.
Ao que diga a revista Veja, nosso baluarte do discurso determinista beija-flor-jumento-encurralado. Em certa matéria sobre tecnologia, o jornalista nos apresenta um mundo futuro no qual tudo está conectado à Internet, de geladeiras a sapatos, passando por cachorros e cérebros humanos. Até aí tudo bem, a tecnologia realmente pode nos levar a isso. A coisa desanda mais à frente, quando a Revista diz mais ou menos o seguinte: não estamos falando de ficção, mas de uma realidade iminente para a qual devemos nos preparar e nos acostumar. Se pensarmos bem, essa afirmativa está muito próxima de uma mais antiga que dizia: “ Deus criou alguns homens para serem servos e outros para serem senhores. Contentem-se, irmãos.” Não é a mesma coisa?Cara, existem outras possibilidades. E não estou falando de se isolar em comunidades medievais e deixar a barba crescer, por que uma coisa é alternativa viável e inteligente, outra é ser um amish.
Gosto de pensar que tudo que eu considero “normal” não passa de uma das opções possíveis da normalidade. E que eu tenho um arcabouço psicológico e físico capaz de me adaptar a quase todas as outras opções, com maior ou menor sacrifício. Gosto de lembrar que existem pessoas por aí que vivem de forma completamente diferente da minha e que, fossem outras as circunstâncias, eu talvez considerasse ir de gôndola para o trabalho e envelhecer criando cabras como um objetivo invejável de vida. Há quem diga que pensar em todas as possibilidades seria desesperador, mas eu acho que não. Essa posição torna a vida menos vulnerável, mais coesa e robusta. Longe de mim a ultra-relativização e sua ilusão de ótica perniciosa. Mas, a partir do momento em que eu consigo determinar o que é circunstancial, posso procurar com mais acerto o que é eterno - o que não é possibilidade. Quero dizer, não vou mais afirmar, como muitas pessoas fazem, que, se eletricidade acabasse, o ser humano se extinguiria. Também não vou ficar perdido se um dia pararem de passar novelas na tv, ou se abolirem o natal, ou se as mulheres passarem a usar apenas cabelo curto. A gente se adapta.