sexta-feira, 25 de maio de 2012

Avengers




Como já disse em outros posts, não me aventuro a falar sobre filmes, por preguiça de enfrentar as patrulhas ideológicas.  Esse post, portanto, não é sobre o filme The Avengers, mas sobre algumas sensações que tive ao assisti-lo.
            Existe uma espécie de desamparo muito específico, ou talvez de tristeza mesmo, nas culturas que preveem o próprio fim. Percebe-se isso na introdução do Popol Vuh, o livro mitológico dos maias-quichè, ou nos depoimentos que chegaram até nós dos sobreviventes de tribos indígenas. Na forma como esses últimos homens se apegam a suas lendas, a suas danças, a sua língua, num momento em que já percebem quão descolocadas elas se tornaram.
            Nem é preciso ir tão longe, basta observar como pessoas idosas falam de seus tempos e repetem velhos rituais, mesmo sabendo que já não fazem sentido, ou talvez exatamente por saber que não fazem. É um apego infantil, não com desespero, mas com um fatalismo brando, uma rebeldia calma.
            Curiosamente, essa sensação me acompanhou durante cada minuto de The Avengers.  Ouvi alguém dizer que aquele filme era uma suruba nérdica, mas a minha sensação foi a de uma suruba mítica. Tive a impressão de presenciar todos os mitos mais queridos à cultura norte-americana serem apresentados sem disfarces; e não falo aqui dos personagens em si, dos super-heróis, que não considero como personagens mitológicos. Falo do mito do salvador da pátria, do soldado de bom coração que luta como última opção, do homem cético que acaba por acreditar, da guerra como único caminho para a paz, do sacrifício em nome de um bem maior, da defesa do mundo, do mal personificado no estrangeiro, da liderança pela coragem e não pela sabedoria, da força do conjunto, da família como bem divino a ser protegido. Todos os mitos dessa fascinante cultura, repetidos tantas vezes em suas histórias, encarnados com tanta fé na imagem que eles constroem deles mesmos, pareciam desfilar nus.
            Desfilavam nus entre as cenas de ação e as piadas estrategicamente calculadas, entre as cores e estilhaços jogados contra a plateia. Desfilavam nus, com o desprendimento dos que sabem que vão morrer. A nostalgia é mesmo um tipo de ritual fúnebre. É velar o corpo do morto. Não que a cultura norte-americana esteja morrendo. Mas, não sei porque, foi isso que senti ao ver esse filme. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Vontade difusa




É quando me acomete essa vontade difusa de qualquer coisa, esse desejo específico   por algo inespecífico, algo que paira sobre os pensamentos e cuja única característica perceptível é a de não se parecer com nada que eu possa definir. E assim revolvo dias e coisas atrás de um encaixe, de um clique mecânico, ou de um rabo por entre  cortinas, qualquer indício a sinalizar: pronto, você achou o que quer. – mas não o encontro, mesmo que o pressinta sobre mim, e sinta sua respiração em meu ouvido, e seu peso em minha cabeça, como se um morcego de repente habitasse em meus cabelos. Essa vontade tão tangível por qualquer coisa intangível, algo nunca inventado ou sugerido, essa suspeita de que exista uma coisa no mundo que faz todo sentido – e não meio sentido, ou relativo sentido; um fim em si, algo que comece, continue e termine. Como uma barra de chocolate. Algo simples. E assim revolvo dias e coisas e pessoas.