domingo, 16 de maio de 2010

Todos os nomes


Nós que somos classe média instruída adoramos fazer troça dos nomes dos pobres. Achamos muito engraçado quando fulana resolve homenagear um ator hollywoodiano ou um cantor pop. Damos nossos típicos risinhos nervosos de superioridade quando vemos todos aqueles Y e W usados como se fossem bijuterias. Achamos um absurdo que os pais inventem nomes bizarros para castigar seus filhos pelo resto da vida. Mas por que exatamente?
É fácil esquecer que a maioria dos nomes homenageia alguém. Então, enquanto o porteiro do prédio opta por homenagear o Elvis Presley, um ótimo cantor e figura respeitada e unânime, você pode escolher um nome “simples mesmo”, e chamar seu filho de Alexandre, um conquistador homossexual responsável direto pela morte de milhares de pessoas. Ou pode optar por José Eduardo, uma mistura bizarra entre um carpinteiro semita analfabeto que provavelmente nunca tomou um banho e vários reis ingleses amantes de uma boa orgia. Além do mais, chega a ser piada criticar a “ estrangeirização” dos nomes. Afinal, a menos que você chame seu rebento de Juracy, Iara, ou Apoena, vai ser difícil achar um nome que não seja estrangeiro.
Ainda mais fácil de se esquecer é o fato de que, salvo raríssimas exceções, todos os nomes se originaram de corruptelas, erros e adequações. “Nomes normais” como João, Pedro, Ricardo, foram modificados, deturpados, corrompidos por séculos até chegar a suas pronuncias atuais. Acrescentaram-se letras, tiraram-se letras, escrivães bêbados adicionaram acentos, confundiram sílabas e assim por diante. Então, se hoje eu dou risada do fato do primo da empregada assinar Walt Disney e pronunciar Valdisnei, fico pensando em todos os caipiras judeus desdentados e ignorantes que ririam da minha pronúncia de José há 2 mil anos.
Pessoas muito mais pobres, muito mais ignorantes, muito mais necessitadas, muito mais crentes que as de hoje foram responsáveis pelo surgimento do que agora eu chamo de “ bom português”. Uma versão inculta e errada do latim, um emaranhado de misturas e estrangeirismos que, sem nenhum pudor, se reuniram primeiro na boca de camponeses e peões para depois serem regulamentadas e tornadas oficial. Assim são as línguas e não adianta fingir o contrário: elas mudam com o povo, fogem das regras, procuram o caminho mais prático. Num futuro não muito distante, nossos ricos e nobres herdeiros falarão algo mais parecido com o que hoje falam nas “classes sociais baixas” do que com o que nós falamos.
Mas ainda falta algo a ser dito, em bom e claro português. Nós, os privilegiados, gostamos muito de explicar que eles, os coitados, usam esses nomes terríveis por que acham que isso dá “status”. E parece ser isso mesmo: acham pomposo, diferente, chique. Querem que seus filhos sejam especiais e importantes a começar pelo nome. Pois bem, ser importante e ter status para alguém de “ classe social baixa” significa, basicamente, subir de “classe”. Tornar-se mais rico, ter educação, cultura, trabalho digno, conta no banco. Ou seja, significa tornar-se como nós, os privilegiados. Nós nos tornamos o exemplo de vida para eles, aquilo que eles querem imitar. Então, no fim das contas, se usam esses nomes de atores Hollywood e cantores pop, cheios de estrangeirismos e modismos, é por que acham que isso os torna parecidos com... nós. Por que será?

8 comentários:

  1. Faz sentido, faz sentido...(mas é outra dessas verdades que tiram a graça das nossas piadas sem graça)

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  2. ainda tem graça pra mim >_<'
    -claro que agora estou me sentindo culpada.

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  3. Dyójenes Persivaw17 de maio de 2010 05:31

    Considerando que nossos nomes eram piada há um bom tempo atrás e atualmente são bonitos, continuo achando graça dos nomes estranhos do presente momento. Daqui a algumas gerações, as Rubianas e Kleovaltersons terão a sua vez.

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  4. Bem, o meu nome é estranho e eu não gosto dele. Vou me poupar e dizer apenas que o seu texto tá muito engraçado.

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  5. Bom, isso nunca me impedirá de rir de nomes como Nacsilânio. E sei lá, de Orestes também. Quem ainda se chama Orestes?

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  6. Então... Por aqui acabei outro dia, tendo que explicar um amigo russo por que eu tenho tanta dificuldade em distinguir o tu do vós no dia a dia aqui (é muito importante! É falta de educação chamar desconhecidos por tu, por exemplo).
    Fui tentar explicar o que era "você", e tive que apelar pro "vossa mercê" para explicar porque tratamos todos na terceira pessoa. O engraçado, é que eu nunca tinha pensado nisso antes.

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  7. Me pôs a pensar! Muito bom, principalmente o final.

    Mas aqui vai um grande anacronismo: Cara, o português vai ficar muito feio daqui a alguns anos!!!!!! Temos que colocar o povão pra ler, pelo menos assim as mudanças serão mais suaves! (não só por isso, mas também)

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  8. Eu ri do Walt Disney, ou Valdisnei, preciso confessar! kkk

    E eu sou uma homenagem à Marília de Dirceu! Deve ter mais status ter uma homenagem "literária" assim, né? haha

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pode falar, eu não estou ouvindo