sábado, 22 de janeiro de 2011

Perdendo dentes


Na minha época de neandertal, participei de uma manifestação pelo passe livre estudantil. Éramos uns trinta estudantes de humanas, muito preocupados com a ordem mundial e com nossas barbas e camisetas. Movia-nos um misto de coisas: em último lugar, a necessidade real de não pagar ônibus, e em primeiro aquele prazer instintivo e simples de se estar em grupo, de andar junto, de gritar junto, de sentir a força que existe tanto numa passeata pela paz quanto num ataque militar: a força do conjunto. Havia também, claro, bons ideais, intenção de fazer o bem e, em mesma dose, preguiça, baderna e vontade de cabular aula.

Pelas tantas, houve confusão. Foi estranho, por que não era uma manifestação grande nem havia adversários claros contra quem se bater. Uns dois rapazes se colocaram na frente do onibus. O motorista desceu, parecia calmo. Acercou-se de um grupo e, em alguns instantes, estavam todos se engalfinhando. Depois dos deixa-disso e dos chega-pra-lá, a turma se afastou, levando consigo um rapazinho com nariz sangrando. Passaram pelo meu grupo e eu pude ouvir: “O motora me chamou de playbas, aquele filho da puta.”

A briga não foi por ideais, por defesa de posições, mas por uma ofensa à vaidade. E quais brigas são realmente por outro motivo? Quais passeatas terminaram em tragédia por choque de conceitos e não por provocações miúdas, por medição de masculinidade, no grito e na marra? E quantas brigas de amor são mesmo por causa do amor, e não pelos cabelos no ralo, pelas roupas no chão, pela tampa levantada da privada? Se ao alto se elevam as bandeiras de tantos conceitos bonitos e vistosos, cá embaixo as pessoas se atracam por pisadas no pé, por ofensas à mãe, por risos mal-entendidos, por piadas fora de hora.

8 comentários:

  1. Diógenes Persival22 de janeiro de 2011 07:33

    Nenli & Nenlerey. Meu monitor está sujo.

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  2. só participei de uma manifestação na faculdade e foi em bsb, chegando lá fui passear pela cidade com os amigos, enquanto o restante do povo reclamava a validade do diploma de jornalismo. não me arrependo.

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  3. http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/864047-movimento-estudantil-ganha-folego-com-temporada-de-protestos-no-mundo-inteiro.shtml
    Achei que fosse interessante deixar o link aqui.

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  4. Por essa e por outras que eu não participo de passeatas e protestos. Tenho preguiça deles e sei que, no fim das contas, tudo é vaidade.

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  5. É engraçado participar dessas paseatas e ver que quem está em cima do trio elétrico com microfone, na realidade só quer aparecer e é quem rouba pra caramba pelos DCEs da vida... Felizmente já vi algumas das que participei darem certo.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Interessante seu comentário: por que, realmente, não debater por ideários ao invés de se engalfinhar por "vaidades"? Como se pode perder-se no caminho se não já estiver perdido antes de sair? Logo, é sensato qualquer manifestação, se ao menos todos não estiverem embuídos no pensamento a lutar para conquistar algo, ao contrário de se envolver em brigas? Não sairia da cama sem esse pensamento.

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pode falar, eu não estou ouvindo