terça-feira, 29 de maio de 2012

Cowboy do asfalto



Sou morador dos arredores do Parque Agropecuário de Goiânia. E, como é de praxe, em meses de maio e junho apresento minhas críticas relacionadas à Festa Agropecuária da cidade. Para quem gosta de música sertaneja, de cheiro de vaca, de vaca e de mulheres vestidas de vaca a vácuo, a festa é um prato cheio. Para quem não, torna-se bastante incomodo ter que dormir ao som de Michel Teló, almoçar com o aroma de vaca no ar (de vaca viva, digo), e quase atropelar cotidianamente mulheres com dificuldade de se mover devido às roupas que usam( e eu achava que botina devia facilitar a locomoção, e não impedi-la).

Mas a crítica desse ano nem é sobre isso. É sobre cavalos. Toda festa pecuária traz consigo as cavalgadas ao redor do Parque, principalmente pela manhã. Grupos grandes de cavaleiros desfilam seus garanhões pelas calçadas estreitas, entre os engarrafamentos de carros, nas rotatórias lotadas da cidade, entre os lixões e comércios dos bairros. Alguns fantasiam suas montarias com laços, fitas, o diabo a quatro. Do lado de cima, mulheres e homens gordos, sorridentes, vaidosos com seus chapéus brancos. Do lado de baixo, os animais assustados, incomodados com o calor, o caos urbano, o asfalto, as pessoas estranhas.

Não sou do tipo defensor ferrenho dos direitos dos animais. Tenho receio de pessoas que dizem amar mais os bichos que os homens. Aliás, tenho é medo de mulheres solitárias e revoltadas que dizem que os cães merecem mais atenção que os homens. Não acho que homens sejam iguais a bichos. E é exatamente essa a questão: Homens não são iguais a bichos. Homens podem escolher. Podem escolher ser cruéis o não. Não penso que seja crueldade matar um animal para se alimentar dele, como acho que é simplório falar que é crueldade usar um animal para locomoção. Mas e o que dizer de torturar, humilhar e cansar um animal apenas pela vaidade, para nutrir o próprio ego, para desfilar a barriga e a carteira entre os homens?

E logo esses homens, esses que se dizem cowboys, que se dizem amantes do campo e da natureza. Que apregoam uma cultura totalmente construída sobre cavalos e vacas, e pastos. Logo eles! Já não é só crueldade, mas ingratidão. Pura e vergonhosa ingratidão.  Um bicho que levou a humanidade literalmente nas costas em tantos momentos importantes, que foi tão útil e participou tão intensamente da história dos povos. Que em muitos momentos foi mais heróico que qualquer herói. De repente, por capricho alheio e desejo de aparecer, tem que se encher de fitas coloridas e sofrer num ambiente estranho, estressante, caótico, só para que seu dono, grande e gordo, possa dar a impressão de que ama a vida do campo, possa afirmar a masculinidade que sozinho, sem cavalo, não consegue garantir. Possa demonstrar como ama o animal que está humilhando.   

4 comentários:

  1. Fui na pecuária sexta-feira, com direito à presença na boate Búfalos. Obrigado!

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  2. Só eu comentei. Esse post fracassou Zé. A Pecuária é uma manifestação cultural-antropológica-sociológica-estrombólica-relativista-comunicativa do goianiense, e como tal deve ser respeitada.

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  3. Zé, só tenho uma coisa a dizer: AMÉM!

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  4. Adorei vestidas de "vaca a vácuo"!

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pode falar, eu não estou ouvindo