sábado, 27 de fevereiro de 2010

trecho


“- Algo com o qual se convive sem método, um brainstorm.-disse-lhe Liz e observou a chuva pela janela. Ao seu lado, Samuel S. procurava em que se agarrar. Queria dizer qualquer coisa realmente interessante e isso apenas o atrapalhava. Repentinamente, Liz se levantou, esticou bem os braços e se espreguiçou como um felino.

- Acontece que você é muito constante, Samuel S.

E dançou parcamente até a varanda, esbranquiçando o trajeto por onde passara. De lá, fora da vista de Samuel S., começou a falar em disparada, sem pontes ou pausas, provavelmente apenas pelo prazer de sentir as palavras estalando no céu da boca

- Uma mosca vive no máximo sete dias. Têm uma centena de olhos com os quais pode apenas ver vultos e interpretar movimentos. Têm asas, mas apenas para voar ao redor de fezes e bater nas paredes. De que adiante ter asas e tantos olhos assim, se você é uma mosca? De que adianta termos tantos projetos e planos, e sonharmos tão alto e tão descabidamente, e querermos tantas coisas, e termos tantos desejos, e termos tanto a dizer, e termos tanto a corrigir, se tudo em nossa mente dura a vida de uma mosca?... Eu quero que minha vida passe rápido como um outdoor. Sofrer pouco e desejar muito... mas olha como isso é idiotice, essas coisas que falo. Sofrer muito e desejar mais. Diga, Samuel S., você gosta das minhas pernas?

Uma metade de perna surgiu pela porta da varanda, subindo e descendo no ar e fazendo balançar a havaiana azulada.

- Você gosta? E, pra gostar, você entende que eu preciso depila-las sempre, e tenho que fazer caminhadas e não posso comer as coisas que gosto? E que em muito breve elas estarão cheias de veias e varizes, e murcharão ou engordarão.(...)”

2 comentários:

pode falar, eu não estou ouvindo