sexta-feira, 26 de março de 2010

Um pouco de obviedade



Certo, eu sei que o raciocínio que se segue é recorrente, óbvio, quase clichê. Sei inclusive que ele está na base de uma série de ideologias, seitas e movimentos de caráter muito duvidoso. Ainda assim, vou me arriscar ser redundante, por que é algo que eu realmente não consigo entender.

Eu trabalho com jornalismo econômico, mais precisamente com economia cotidiana, caseira, de supermercado. Fico de olho no aumento do preço da batata, do feijão e do ovo de páscoa. Mas claro que o prosaico e o pequeno refletem o complexo e o macro; e acabo entrando em contato, ainda que bem desajeitado, com taxas de inflação, mercado nacional, e etc. Dentro desse meio, as notícias de diminuição de consumo são apresentadas como verdadeiras ameaças de morte, enquanto o aumento do consumo é amplamente festejado. Ora, estava aí até agora pouco o exemplo da crise financeira, um banquete midiático para os cultivadores de fins-do-mundo, e que só foi resolvida com o aumento do consumo internacional. Chegamos ao ponto de sustentarmos uma estrutura que depende do aumento constante do consumo para funcionar, ao mesmo tempo que todos sabemos que isso só pode nos levar à tragédia. Ok, é uma conclusão tão óbvia que até me envergonha repeti-la aqui.Mas não é absurdamente intrigante? O aumento do consumo salvará a civilização como nós a conhecemos mas só a diminuição do consumo salvará o nosso planeta e, por conseqüência, a existência humana.

Tenho sempre a sensação de que a pergunta principal é a que menos se faz. Provavelmente por ser tão óbvia que machuque o amor-próprio, ou também por ser tão imensamente simples que se torne impossível de responder. Mas engulo a vergonha e pergunto: a solução real não seria, na verdade, reduzir o consumo? Parar de consumir tanto? Como eu já disse ali em cima, fazer isso, no patamar atual, acarretaria conseqüências catastróficas para nossa civilização. A diminuição da produção de bens de consumo, o esfriamento do mercado, inflação, deflação, crise financeira, gente rica indo a falência, gente pobre perdendo o emprego e etc. Seria, como bem dito, a ruína do nosso modo de vida. E a salvação da nossa pele. Por isso chego à questão que talvez não seja tão simples de se fazer, embora também seja óbvia: será mesmo que o nosso modo atual de vida é o melhor para nós mesmos e para nosso futuro? Será que é o único?

8 comentários:

  1. Diógenes Persival26 de março de 2010 10:21

    Ligue pro Aguinaldo e pegue o último INV da Abras. Depois ligue pra três supermercados.

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  2. Começa num blog, termina batendo panela.

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  3. não espere que as pessoas respondam à essa pergunta.

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  4. Toda e qualquer pessoa no mundo concordaria contigo. Até você dizer que bem, uma mudança no modo como consumimos envolve não trocar de celular três vezes por ano.

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  5. Zé, vamos no shopping hoje?

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  6. Se as expectativas do mundo se mantesem mais baixas os problemas muniriam num passe de mágica kkk.
    Oks,mas agora sério se derrepente todo mundo se preocupasse em reduzir o consumo você não perderia o emprego? no mínimo menos útil pelos preços estarem constantemente mais estáveis.Tá pensando bem o que eu disse não fez muito sentido,whatever são 02:30 AM estou com sono x)

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  7. Bem, aí entra uma parte muito interessante também, a idéia das empresas ecologicamente corretas (ou sustentáveis). É uma idéia extremamente mercadológica, que se inicia parecendo para que consumemos menos, mas na realidade é só uma maneira de consumirmos mais daquela determinada empresa. E pergunto no final isso não é benéfico, ou menos pior?
    Se uma mudança brusca seria algo ruim, pergunto: como mantermos a meta de melhorarmos a "qualidade" do consumo (torna-lo mais ecologicamente correto) sem que o mercado desenvolva uma maneira de "engolir" essa idéia e estourar uma mais "sensacional" na cultura pop?
    Devemos aproveitar que a ecologia está na moda e promover ao máximo uma consciência ambiental de modo que se por um lado nós cotidianamente destruimos o planeta, que nós possamos reconstruí-lo em uma velocidade igual.

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  8. Salve Zé...
    Seguinte. Vivemos em uma sociedade de consumo! Nooooo que novidade não é mesmo?
    Mas o que eu realmente observo, é que existe um ciclo que necessita ser mantido para que todos continuem existindo.
    O que me deixa preocupado é com a divisão da nossa socieade: Entre os que produzem e os que não produzem.
    Sim. Na socieade produtiva, temos as pessoas de poder aquisitivo menor e que me trabalham duro para suprir suas necessidades basicas e de consumo. E quando elas consomem, entregam seu dinheiro às grandes empresas, que pertencem à classe alta que também trabalha duro para manter seu padrão de vida.
    O que me deixa revoltado, é com a segunda parte da sociedade. Pq tanto os pobres quanto os ricos são obrigados a entregarem parte do seu esforço para um setor chamado Estado, que recolhe esse dinheiro que ira sustentar os figurões que nos governam e a massa de desocupados que os mantém no poder...
    Concluindo Senhor José...
    ... neste mundo de consumo, é isto que me consome!

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pode falar, eu não estou ouvindo