
Todo mundo está ciente de que o Brasil não é lá um país muito sério. Tampouco muito verossímil. Se houvesse uma escala de veracidade das nações, acho que a pátria amada ficaria em algum lugar ali entre Atlântida e o País das Maravilhas. Para algumas coisas que acontecem, a gente precisa esfregar bem os olhos e chacoalhar com força a cabeça até se convencer de que é mesmo aquilo lá e não uma miragem. Naturalmente, a primeira reação que tive quando fiquei sabendo da decisão do STF a respeito dos diplomas de jornalista foi de revolta. Ora, um retrocesso! Bastante condizente com o padrão brasileiro de qualidade administrativa. Quer dizer que agora até o cozinheiro da lanchonete da esquina pode se ocupar das minhas funções profissionais? O mesmo cara que serve em seu menu um “mizto quente” e que acredita em tudo que a tv fala? E como é que fica meu piso salarial agora que qualquer um pode fazer o que eu faço? Talvez não tenha me atingido tanto por que eu nunca me considerei um jornalista mesmo. Mas ainda assim, fiquei decepcionado.
Bom, é certo que são aspectos revoltantes. E não tenho dúvida do desrespeito e do despreparo com que se tratou e se decidiu o tema. Mas eu preferi demorar um pouco a escrever sobre o assunto exatamente para deixar passar o calor inicial. Assentada a poeira e amainado o temperamento, outros pensamentos me acudiram.Começo a ver, meus amigos jornalistas, a decisão do STF como uma grande e única oportunidade. Uma chance como nenhuma outra. E sabem por que?
Por que eu presenciei certas metamorfoses curiosas nesses últimos dias. Vi muita gente esforçada se revoltando com sinceridade e nobreza. Mas também pude observar como pessoas, algumas íntimas minhas, que passaram anos criticando, debochando e menosprezando a faculdade de jornalismo de repente se armaram para defendê-la com unhas e dentes. Professores que nunca se importaram com a qualidade do que faziam e das aulas que davam subitamente passaram a subir no palanque e falar de “retrocesso”, falar de “ignorância” e de “falta de respeito com a profissão de jornalista”. E todos nós, eu inclusive, bradamos que o Jornalismo não é reconhecido nem levado a sério nesse país. Não e mesmo. Mas é claro! A começar por nós! O preconceito e o desprezo começam em nós mesmos. Nós nunca conseguimos nos unir e sempre culpamos as conjecturas por isso. Mas na verdade, o que se vê é um desfile de egos inflados, de medíocres, de gente difícil de conviver, que acha rinha em qualquer detalhe. Os jornalistas nunca foram unidos e nem fortes aqui. Adoramos criticar, odiamos estudar. E eu percebi que minha revolta e a de muitos amigos tinha haver apenas com o fato de que meu salário poderia ser prejudicado. Ah, então é isso? É só por isso que essa lei deveria ser diferente? Não é uma prova cabal do desprezo que nós próprios nutrimos do nosso curso? Se temos medo de sermos substituídos por desqualificados, então é por que temos dúvidas sobre nossa qualificação.
Ouvi tantos dizendo que o diploma agora não vale mais nada. Eu mesmo soltei uma dessas: vou receber o diploma e fazer um aviãozinho com ele. Pobre de mim. Estava comprovando o meu próprio desvalor. Afinal, a decisão judicial anula quatro anos de esforço? Anula tantos livros que li, tantos trabalhos que fiz, as línguas que aprendi, a experiência que adquiri? A gente está com medo de que outras pessoas menos qualificadas roubem o nosso espaço? Ora, isso é duvidar da própria capacidade e do próprio esforço. Por isso a decisão de STF surge como uma grande oportunidade para nós, uma oportunidade histórica.
Se eles desprezam o curso de jornalismo, então vamos mostrar a eles que nós não merecemos desprezo. Já devíamos ter feito isso há muito tempo.Afinal, não dá para ser hipócrita e esconder que a faculdade de jornalismo vinha sendo levada nas coxas, alheia à qualidade e acomodada com o fato de que a lei defendia o diploma e as empresas eram forçadas a só contratar diplomados. Agora o jogo virou, meus camaradas. Não é mais assim, e as faculdades terão que provar que ter um diploma é mesmo um diferencial. Eu vejo isso como uma chance única. Para os professores, é a chance de rever suas atitudes e mostrar como a faculdade é um centro de excelência, como seus conhecimentos são vitais para a formação profissional. Para os alunos, é a chance de fazer valer seu curso e seu esforço, de mostrar ao mundo que eles são jornalistas, que lutaram para ser e que se orgulham disso. Para quem já tem diploma, agora é a oportunidade de provar ao mercado a diferença gigantesca que há entre nós e os cozinheiros. E se alguém vier me dizer de novo que meu diploma não vale mais, eu respondo, com calma e confiança: Agora que ele vale muito. Agora que ele vale mesmo.