segunda-feira, 29 de junho de 2009

O mês que não quer acabar


Algumas coisas me foram desaprendidas em junho. Perdi o senso do espírito e desandei, outra vez. Se antes voava, hoje nem sei. Talvez os meus pés estivessem levemente acima do chão, ou talvez fosse a ressaca ou o a falta de norte – a gente bem sabe que o mundo gira errado e sem coração. Preocupou-me sobremaneira o tamanho das vírgulas, a presteza dos pontos, a distância das letras, mas não o verso. Mas não a prosa, nem a epopéia. Em junho não inventei língua alguma, não escrevi uma carta, nem disse oi aos meus amigos mais nobres. Nunca fui tão desapaixonante quanto em junho. Alguma coisa ficou rachada. Suspeito que a cabeça, para que nela entrassem dúzias de preocupações medianas – e não para que fluísse dela qualquer utopia. Acho que calculei demais os passos e, quando maio pareceu-me mecanicamente circunscrito, ou quando abril ainda descrevia um céu de elipses, a receita de junho não vingou.
Tantos textos escritos para tão pouco coração. O esforço paulatino de desregrar meus sonhos, de favorecer meus medos e aprender a dançar conforme a disritmia. Se de uma palavra desses dias passados, você puder resgatar uma gota do Zé que já cantou, peço que, por favor, pingue com ela qualquer i da minha individualidade – vez por outras ela tem me faltado. Algumas coisas me foram desaprendidas em junho, e eu terei que começar do zero. Não sei se foi o excesso de esmero ou a falta da prática. Mas aos 22 anos, com essa altura de moleque e essa má vontade de velho, passo meus dias resgatando o sentido do passar dos dias. Um ante o outro, não como um viciado em cigarros, mas como alguém jogado dentro de um mês que não acaba, que fica demorando, fazendo hora, que não sabe se passa logo ou mal. Tanta vontade que tenho agora de que julho chegue e, com ele, meu espírito venha passar as férias por aqui. Até por que junho foi o mês das cascas.



sábado, 27 de junho de 2009

Duas cenas abstratas (e verídicas)


I.

Sexta-feira, dia 27 de junho. Madrugada, perto das duas da manhã. Eu estou na rua, ajudando a trocar um pneu. O pneu pertence ao carro de um amigo desesperado que dava carona a dois americanos do Alabama. Na calçada estão o manual do carro, o step e uma caixa de leite. A americana do Alabama tira fotos e usamos o flash e um celular como lanterna para ler o manual, já que não encontrávamos uma das ferramentas. Meu amigo brada que vai processar a concessionária e a fábrica. De repente, o celular toca e me avisam do outro lado:
- Michael Jackson morreu, cara.
Eu então olhei para minhas mãos sujas de graxa e depois para o céu e esperei por uma chuva de sapos ou quem sabe um meteoro.


II.

Sexta feira, dia 27 de junho. Perto das 9:30 da manhã, na Faculdade de Letras da UFG. Devido à minha madrugada bizarra, chego atrasado para a prova de francês instrumental. Mas felizmente, ou infelizmente, o professor tem a serenidade cômica de um Obelix. Acho curioso como a sala está cheia. Reconheço rostos de alunos que apareceram nas três primeiras aulas do semestre e depois se escafederam sem deixar rastros. Um deles é o rapaz alto e barbado com cara de líder revolucionário estudantil. Suspeito que ele tenha vindo a apenas uma aula em todo o semestre. Sua camisa tem um Che por baixo da jaqueta de motoqueiro. Ele reclama que ninguém o avisou que poderíamos usar o dicionário na prova. Senta atrás do cara com cara de físico tradicionalista. E cola absurda e descaradamente. Quero dizer, cola de uma maneira que eu não vi nem na minha época de quinta série. Daquele tipo de cola na qual o sujeito estica o pescoço por cima do ombro do outro. Debaixo do bigode francês do professor Obelix. Espia e copia, espia e copia. Um homenzarrão de barba na cara e sapato 46 , com o capacete de moto jogado ao lado, esticando o pescoço e a retina como um guri e reproduzindo tudo ao lápis. Passei boa parte da minha prova imaginando o tal rapaz saindo da aula de francês instrumental direto para alguma ação revolucionária do movimento estudantil. Visualizei sua figura imponente defendendo a qualidade do ensino e os direitos dos estudantes. Amém.


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Noite cor de insônia – não deveríamos sair por aí procurando nos perder


escrito em 13 de novembro de 2005

Infelizmente, esse relato é verdadeiro


Sob a égide do discernimento, pouca coisa resta. Restam canções tocadas no volume mínimo, um cálculo torto percorrendo a parede e um semi-eu pouco à vontade com o imediatismo dos outros. E o seu próprio. Eu conto as pontas de seringa, e os restos de cigarro, espalhados pelo chão da sala como meninos e meninas jogados pelas calçadas. Há um cheiro de perda e decepção, e uma menina muito branca segurando as minhas mãos. Ela me conhece por conveniência, me diz algumas poucas adversidades, e gosta das músicas que eu gosto, em graus variados. Eu queria muito conversar sinceramente, mas apenas repito cenas de filmes. Filmes ruins. Olho em seus olhos e me pergunto se ela está tão perdida quanto eu. Se ela entende tão pouco quanto eu as relações entre os seres, e tente sobreviver ilesa aos erros dos outros. Ela me responde: “ Houve uma época em que eu ouvia muito punk” E eu encontro séculos sob sua pele lisa. Estamos tão velhos, sentados no final de uma festa, em algum sábado cheio de desencanto. Eu poderia estar em casa, dormindo. Poderia estar sonhando, mas não. Quando beijo a menina branca cor de insônia, sei que estou me ferindo. Sob a égide das boas intenções os dedos ousados afundam embaixo das saias. Não há a mínima chance de uma poesia, mas há fartas possibilidades de libido. Há fartas possibilidades de engano. Assim que eu voltar para casa, tomarei um banho para tirar de mim o seu perfume, o seu instante de prazer consciente, o seu erro mais leve, o meu defeito peculiar: a falta de alguém para amar sem parecer distância. Tomarei um banho para me limpar da noite. Mas sei que me deitarei com a alma suja.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Post Institucional


Essas coisas são engraçadas. Amanhã o blog completa um ano desde a primeira postagem. Não vou dizer que é difícil manter um blog. Não é não. Difícil é descarregar caminhão de melancia com uma mão só. Hoje em dia todo mundo tem o seu e, por vezes, escreve com bastante diligência. Sei de pessoas que conseguem até ganhar dinheiro com isso. Não é exatamente o meu caso.Além do mais, se tem uma coisa que faltou no dia em que me fizeram foi o tal dom para ganhar dinheiro. Quero dizer, tenho tanto dom para ser rico quanto um marreco tem dom para a culinária. Culpa da ausência completa de sangue árabe, judeu ou chinês na minha árvore genealógica. Mas alguém tente me perguntar se eu trocaria minha fome de escrever por uma renda de jogador estrela de futebol... Ok, não pergunte. De qualquer forma, a comemoração de um ano de ouvidosmudos tem seu valor sentimental para mim. Incentivou-me a revisar alguns textos antigos dos outros blogs que eu montei. Descobri que escrevo na Internet desde o dia 10 de novembro de 2005, quando abri o blog quatrocavaleiros, em parceria com o Guilherme, o Paulo e o Lucas. Desde então, tenho mantido certa constância nessa sutil arte de se expor diante de olhos desconhecidos. Nos próximos posts, vou republicar algumas coisas antigas que, lidas agora, parecem tão mais enigmáticas. Vamos lá, começando com meu primeiro texto publicado na Internet:


O Primeiro.
Isso é apenas um teste. Sem resultados previstos, sem releituras filosóficas, sem mensagens nas entrelinhas. Isso é apenas um lance no escuro. À 12:50 do dia 10 de novembro de 2005, uma quinta-feira sem grandes descobertas, resolvi abrir mão do que me escondia para iniciar algo que muito possivelmente não continuará por menos que alguns segundos. Mas que era preciso iniciar, como é preciso ver nascer mesmo a mais inútil das realidades.

domingo, 21 de junho de 2009

Essas moças tão diferentes...

Essas moças tão diferentes...


Estive de visita à nova casa das minhas escritoras e amigas Ana Flávia Alberton, Ana Paula Vieira e Marília Almeida, para um chá com bolachas. Confesso ter ficado encantado com o lugar. Papel de parede bonito, sofás macios e boa música, pingos nos is e alguns gritos. E o que eu poderia esperar dessas três moças que estão e sempre foram tão diferentes? Cada uma entrou de forma inusitada e especial na minha vida e, mesmo não nos encontrando mais nos corredores da Facomb, continuam por aqui, com seus textos e sua literatura de primeiríssima qualidade. A iniciativa delas me deixou muito empolgado e eu acho que é isso mesmo que tem que acontecer! A gente que escreve tem que se unir, tem que criar oportunidades de mostrar o que fazemos de bom. Por isso mesmo estou agora, como diria minha mãe, “babando cor de rosa” para essa novíssima casa de boas idéias:

http://www.essamocatadiferente.com/site/

Eu sei que devem haver umas 3 ou 4 pessoas que freqüentam o meu blog. Então as convido a pagar uma visitinha a esse site das meninas. Vale a pena! Vale muito! Abaixo minhas considerações sobre as três moças:

Ana Paula: essa é uma jornalista nata, por formação e por espírito. Ultimamente anda desbravando terras novas, e seu olhar tem visto novas cores. Mesmo assim, traz sempre no peito o coração da típica mocinha de filme romântico, que bate uma vez com calma e dez vezes com pressa. Seus textos são confissões que não se furtam de choro nem de riso. Ler a Ana Paula é testemunhar ao vivo uma pessoa em constante esforço para mudar e para ser melhor.

Ana Flávia Alberton: as palavras da Ana sempre me lembram de ruas de paralelepípedos, praças com coreto e moças de braços brancos à janela. Ao mesmo tempo, pressinto qualquer coisa de circense, um jeito de pintar a vida com cores que se disfarçam de bufantes, mas que no fundo são sérias. A Ana escreve sobre as coisas que estão próximas, o mercado central, o rapaz do ônibus, a menina que se entregou ao cotidiano, mas sabe retirar delas uma grande distância que parece saudade ou canção. Quando está triste, quando está alegre ou quando está brava, os textos da Ana são sempre cantantes.

Marília Almeida: conheço a Marília de outros carnavais. E desde sempre já dava para perceber: essa moça sabe usar as palavras. Por vezes é mordaz, por vezes é conciliadora, mas nunca deixa de ser apaixonada. A Marília já me brindou com textos sobre o cotidiano e textos líricos, com a mesma boa verve e a mesma sinceridade. É firme em suas convicções e brava quase sempre. Tem aquilo que a tantos falta e tanta diferença faz: vontade de mudar e força para ser ela mesma. Com toda razão, digo de passagem. Com toda razão!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O meu diploma de jornalista


Todo mundo está ciente de que o Brasil não é lá um país muito sério. Tampouco muito verossímil. Se houvesse uma escala de veracidade das nações, acho que a pátria amada ficaria em algum lugar ali entre Atlântida e o País das Maravilhas. Para algumas coisas que acontecem, a gente precisa esfregar bem os olhos e chacoalhar com força a cabeça até se convencer de que é mesmo aquilo lá e não uma miragem. Naturalmente, a primeira reação que tive quando fiquei sabendo da decisão do STF a respeito dos diplomas de jornalista foi de revolta. Ora, um retrocesso! Bastante condizente com o padrão brasileiro de qualidade administrativa. Quer dizer que agora até o cozinheiro da lanchonete da esquina pode se ocupar das minhas funções profissionais? O mesmo cara que serve em seu menu um “mizto quente” e que acredita em tudo que a tv fala? E como é que fica meu piso salarial agora que qualquer um pode fazer o que eu faço? Talvez não tenha me atingido tanto por que eu nunca me considerei um jornalista mesmo. Mas ainda assim, fiquei decepcionado.

Bom, é certo que são aspectos revoltantes. E não tenho dúvida do desrespeito e do despreparo com que se tratou e se decidiu o tema. Mas eu preferi demorar um pouco a escrever sobre o assunto exatamente para deixar passar o calor inicial. Assentada a poeira e amainado o temperamento, outros pensamentos me acudiram.Começo a ver, meus amigos jornalistas, a decisão do STF como uma grande e única oportunidade. Uma chance como nenhuma outra. E sabem por que?

Por que eu presenciei certas metamorfoses curiosas nesses últimos dias. Vi muita gente esforçada se revoltando com sinceridade e nobreza. Mas também pude observar como pessoas, algumas íntimas minhas, que passaram anos criticando, debochando e menosprezando a faculdade de jornalismo de repente se armaram para defendê-la com unhas e dentes. Professores que nunca se importaram com a qualidade do que faziam e das aulas que davam subitamente passaram a subir no palanque e falar de “retrocesso”, falar de “ignorância” e de “falta de respeito com a profissão de jornalista”. E todos nós, eu inclusive, bradamos que o Jornalismo não é reconhecido nem levado a sério nesse país. Não e mesmo. Mas é claro! A começar por nós! O preconceito e o desprezo começam em nós mesmos. Nós nunca conseguimos nos unir e sempre culpamos as conjecturas por isso. Mas na verdade, o que se vê é um desfile de egos inflados, de medíocres, de gente difícil de conviver, que acha rinha em qualquer detalhe. Os jornalistas nunca foram unidos e nem fortes aqui. Adoramos criticar, odiamos estudar. E eu percebi que minha revolta e a de muitos amigos tinha haver apenas com o fato de que meu salário poderia ser prejudicado. Ah, então é isso? É só por isso que essa lei deveria ser diferente? Não é uma prova cabal do desprezo que nós próprios nutrimos do nosso curso? Se temos medo de sermos substituídos por desqualificados, então é por que temos dúvidas sobre nossa qualificação.
Ouvi tantos dizendo que o diploma agora não vale mais nada. Eu mesmo soltei uma dessas: vou receber o diploma e fazer um aviãozinho com ele. Pobre de mim. Estava comprovando o meu próprio desvalor. Afinal, a decisão judicial anula quatro anos de esforço? Anula tantos livros que li, tantos trabalhos que fiz, as línguas que aprendi, a experiência que adquiri? A gente está com medo de que outras pessoas menos qualificadas roubem o nosso espaço? Ora, isso é duvidar da própria capacidade e do próprio esforço. Por isso a decisão de STF surge como uma grande oportunidade para nós, uma oportunidade histórica.

Se eles desprezam o curso de jornalismo, então vamos mostrar a eles que nós não merecemos desprezo. Já devíamos ter feito isso há muito tempo.Afinal, não dá para ser hipócrita e esconder que a faculdade de jornalismo vinha sendo levada nas coxas, alheia à qualidade e acomodada com o fato de que a lei defendia o diploma e as empresas eram forçadas a só contratar diplomados. Agora o jogo virou, meus camaradas. Não é mais assim, e as faculdades terão que provar que ter um diploma é mesmo um diferencial. Eu vejo isso como uma chance única. Para os professores, é a chance de rever suas atitudes e mostrar como a faculdade é um centro de excelência, como seus conhecimentos são vitais para a formação profissional. Para os alunos, é a chance de fazer valer seu curso e seu esforço, de mostrar ao mundo que eles são jornalistas, que lutaram para ser e que se orgulham disso. Para quem já tem diploma, agora é a oportunidade de provar ao mercado a diferença gigantesca que há entre nós e os cozinheiros. E se alguém vier me dizer de novo que meu diploma não vale mais, eu respondo, com calma e confiança: Agora que ele vale muito. Agora que ele vale mesmo.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A culpa é sua, porra.


Tem dias que dão errado. E quase sempre, na grande maioria das vezes, ou ainda, na provável totalidade das situações, a culpa é nossa. Pode procurar debaixo dos próprios tapetes, dentro dos armários, atrás das pálpebras, pode vistoriar a sua ficha corrida – se for uma observação minuciosa (a lá CSI) logo aparece o dedo da própria culpa mexendo seus pauzinhos.
Só que acontece também dos dias que dão errado. E a culpa não é nossa. Até aqui, até bem aqui, eu ainda não acreditava nisso. Como não acredito em fadas e em coroinhas. Como não acredito em capixabas ou em duendes mentirosos. Eu ainda não havia me convencido, por falta de prova ou de esperteza, que poderiam haver dias que se erravam sozinhos, graças ao malfeito alheio. Isso até hoje.
E sabe que talvez fosse resultado é de certo problema clínico de egolatria? Afinal, eu queria que os erros fossem sempre meus, só meus, nem encostem as mãos nos meus erros meus! Queria apenas para poder dizer que só eu teria a capacidade de concertá-los.Não gostava da idéia de repassar a minha culpa a mais ninguém, para que não ficasse dependendo de terceiros na minha própria redenção. Ainda penso assim. Não quero redentores que não sejam eu mesmo. Mas, nesse ponto, as fronteiras ficam tão rígidas quanto a Ponte de Amizade: até quando isso é tomar pra si os problemas e até quando isso é se achar capaz de resolver tudo? Qual a diferença entre o responsável e o super-homem?
Pois bem, meus amigos. Hoje quero deixar de lado minha pose de super-homem e compartilhar com vocês um pouco da culpa pelas merdas do universo. Peguem aí uma fatia também, tem pra todos. Há dias que dão errado, cara. Assim mesmo. As outras pessoas invadem o seu bom-mocismo, e você pode ser educado o quanto for, você pode até esboçar um bom coração de bijuteria. Não vai prestar. O dia acordou virado, os erros dos outros acumulam na soleira da porta, você sai de casa e tropeça. Vira na esquina e a estupidez alheia te rouba o dinheiro do mês. Chega no trabalho e a lentidão do resto da humanidade te pisa na boca. Abre os jornais e a ignorância sistematizada te distribui sopapos.

Nunca foi pessimista e nem estou sendo. Ainda acredito com força e com consciência nas próprias capacidades de mudar essa joça toda. Em nenhum momento cogitei passar para o time de lá: o time dos que jogam a culpa de tudo em todo o resto e vão desfilar como santos martirizados, esperando a crucificação e o posterior comes e bebes do happy hour. Mas de vez em quando dá no fundo da alma, convenhamos...
Hoje o dia correu todo bichado, e a culpa não foi minha. Foi do resto da humanidade. Foi do cara que me roubou na rua, foi das mães desses infelizes motorizados que não sabem conviver em grupo, que não têm um senso mínimo de educação, foi da mediocridade dos outros (da minha falo outro dia), da terrível e sufocante mediocridade dos outros,foi dos otários que cancelaram meu diploma, foi do resto. Mas e aí? O que eu posso fazer? Desfilar cheio de chagas e esperar a crucificação e o happy hour? Prefiro ir dormir. Tem dias que dão errado, tem outros que não. Quem sabe amanhã o dia não toma vergonha nessa cara cheia de minutos?

sábado, 13 de junho de 2009

breve confessionário de primeiros namorados


( para minha amiga natália, no dia dos namorados)


o meu primeiro namorado
sentava no fundo da sala
e me encontrava no recreio,
sempre na esquina da escola
até que um dia ele não veio
me deixou pra jogar bola.

o meu segundo namorado
era alto de mãos longas
como ruas, sempre frias
como longas noites brancas
não sabia o que dizer, e beijava muito mal
nosso amor durou as férias
e acabou no carnaval.

O meu terceiro namorado, ai que medo
Tinha carro, tinha barba,
tinha porte, uma beleza.
Até dizia que me amava
Elogiava as minhas roupas
Compreendia o que eu passei
Ah, meu pobre namorado
que tristeza...
Era gay.

O meu quarto namorado
Ao contrário do terceiro
Me pegava no armário
Na cozinha, no terreiro
Estava sempre bem disposto
Disposto até demais
Um dia acabou exposto
Na frente dos meus pais.

O meu quinto namorado
Era revolucionário
Hoje aluguem o Brasil
Amanhã, salvem as baleias
Não arrumava o próprio armário
Nem limpava as próprias meias

O meu sexto namorado
Era intelectual
Falava alemão, trabalhava num jornal
Citava Kiekergaard, escrevia poesia
Tanto peso em uma cabeça
Que a outra mal subia

terça-feira, 9 de junho de 2009

young love


Como eu já deixei bem claro aqui e acolá, a adolescência não é a minha fase favorita da vida. Até por que eu nem considero uma fase da vida propriamente dita. Parece mais uma daquelas doenças clássicas que todo mundo têm uma hora ou outra, tipo caxumba, sarampo, adolescência. Um dia você acorda e seu corpo está todo esquisito. Nascem coisas estranhas de lugares inusitados e você começa a pensar se realmente o ser humano foi uma daquelas boas idéias de Deus, ou se foi algo como uma pegadinha infame. O seu pensamento logo muda, por que seu organismo é subitamente inundado por hormônios sertanejos e você começa sentir uma tendência irresistível a ser um pé no saco dos outros. Mas enfim, esse texto não é sobre adolescência, mas sobre atitudes adolescentes fora de hora.

Conversava recentemente com uma grande amiga sobre como, muitas vezes, no quesito relacionamento, nós adotamos atitudes adolescentes endêmicas. Pelo que se entende, o rumo natural das coisas é evoluir, amadurecer, se tornar mais sábio, menos burro, mais esperto, menos revolucionário e assim por diante. No geral, a gente vai crescendo ou se acostumando com certas mudanças: você já não tira aquele cochilo das 14 às 18h na terça-feira e, embora faça falta, descobre que é possível viver sem ele. Você começa a pensar em trabalho, em estágio, em ganhar dinheiro. Até suas bebedeiras, se você bebe, se tornam mais comedidas (ou não). Mas enfim, de uma forma ou de outra, as pessoas te olham na rua e acham que você já é um adultinho. Acontece que tudo isso desmorona pateticamente quando você volta ao quesito pré-relacionamento amoroso. Mais especificamente naquele momento crucial em que você se interessa por alguém e não sabe como anda do outro lado. E então lá vamos nós de novo reviver diálogos como:

- Será que a atitude dela quando me viu quis dizer alguma coisa?
- Depende, o que ela fez de diferente?
- Espirrou.
- Hmmm.
- Mas foi um espirro assim, sabe? Meio de lado? Não sei, tinha coisa.

Recomeçamos logo a tecer conjecturas baseadas em espirros, finais de frases e comunidades no orkut. A pessoa-alvo se torna um alfabeto simbológico ambulante, do tipo que faria Saussure revirar os olhinhos. Se ela levantou da cadeira pela direita, pode significar que não estava afim de conversar. Se ela veio conversar, pode significar que ela estava tentando ser educada. Se o abraço foi apertado, ela está carente. Se não teve abraço, ela te odeia. Se ela está na comunidade Gravação do dvd do Bruno e Marroni – eu fui.... bem, não sei o que dizer sobre isso. E assim, nós, adultinhos trabalhadores, voltamos a ensaiar em frente ao espelho a melhor tonalidade do oi a ser dito no dia seguinte:

- Oi! Não, muito seco
- Oooooi! Não, muito loira burra
- Oi!!! Não, propaganda de tv demais.
- Olá enfermeiraaaa.. Ok, vou voltar pra monografia.

É, eu também vou voltar pra monografia. Enfim, era só para dizer para essa minha amiga que ela fez a coisa certa, que vai dar tudo certo e que, não, uma espinha só, no alto da testa, não é motivo para ficar em casa no sábado a noite. Terminando, deixo aqui uma musiquinha bem legal que fala exatamente sobre isso: http://www.youtube.com/watch?v=qz-FoGp3p0s

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Nesta pedra.




.então. houvera mares e países a conhecer. suas viagens mais íntimas não trariam: souvenniers, coleções de discos, relicários. toda uma delicadeza de falsários, perfumes, sacerdotes. uma frase feita na qual se apoiar - do diz que diz ergui um leito e uma amante - Se de pormenores destrinchasse a sua terra -atrás de pedra que, rotunda, recordasse - da sua luta, já meio morta, meio velha. uma pedra firme que te erguesse por um instante.

nesta pedra. nesta pedra havia um reino. que chamavam, ou chamaram, eternidade. quem provar de sua água - ou seu veneno - será rei de espantalhos e ossadas. quem provar de sua fruta - ou de seu seio - terá mil anos de eterna iniqüidade. Mas aquele, que do trono fez esteio, e da vida fez eterna lapidagem. esse sim. esse reino. esse homem. nesta pedra, terá mil anos de Verdade:

sábado, 6 de junho de 2009

A gente espera, certo?



Você pretende uma seriedade que não há
em versos livres, quedas livres e cometas
em saltimbancos cheios de pó nos calcanhares
e nas marias que um dia eu beijei com medo.
VocÊ pretende ser o que nunca será
pois é perfeita assim, na imperfeição
a sua maior virtude é saber pecar
a sua candura há de te ter na perdição
Olha, maria, eu sei rimar. Mas ainda assim
mal consigo viver a vida sã. Seria muito o que pedir
se pedir é emprestar, eu pediria amor
Mas não amor aguado, nem amor malsão
Quem sabe um amor daqueles que se aprende
Qual ciência de vertigem ou origami
Quem sabe um amor que tenha amor no nome
Não só saliva, não só sêmen, nem só sangue.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Jornalismo sem fio (ou Entendendo o mundo por manchetes)


Boa noite. Essas são as manchetes de hoje: Especialistas americanos apontam que avião voava com velocidade incorreta no momento da queda. A rainha da Inglaterra envia mensagem de condolência ao povo francês. Segundo IBGE, produção industrial sobe em sete das 14 regiões pesquisadas em abril. Homem assassina mulher e filhos com extintor de incêndio e depois pede uma pizza em São Paulo. Pesquisa revela que oito entre dez brasileiros trairiam suas esposas com atriz de cinema. Atentado em sinagoga de Israel deixa 60 mortos. A moda inverno revive os cachecóis e o chapéu de cowboy. Consumo de drogas é tema de exposição no MASP essa noite. Internacional perde mas consegue vaga na decisão da Copa do Brasil.

Boa noite. Especialistas americanos apontam que avião voava errado. A rainha da Inglaterra envia mensagem de condolência ao povo. A produção sobe em sete regiões em abril. Homem assassina mulher e filhos com extintor de incêndio e depois pede pizza. Oito em dez brasileiros trairiam suas esposas com atriz. Atentado em Sinagoga deixa 60 mortos. A moda revive os cachecóis e o chapéu de cowboy. Drogas é tema de exposição no Masp. Inter perde mas consegue vaga na Copa do Brasil.

Americanos apontam que avião voava. A rainha da Condolência envia mensagem à Inglaterra. Produção sobe entre 7 e 14 de abril. Homem assassina mulher, filhos e pizza e depois pede extintor de incêndio. Dez brasileiros traíram suas esposas. Atentado em Cingapura deixa 60 mortos. A moda revive os cowboys e o chapéu de cachecóis. Drogas são expostas no Masp. Brasil perde mas consegue vaga na decisão da Copa Internacional.

Americanos apontam que a rainha voava. Inglaterra envia chapéu à Condolezza. Produção de pizza sobe entre 8 e dez e deixa 60 mortos. Extintor de Incêndio assassina mulher, filhos e atrizes de cinema e depois pede um cachecol. A moda agora é trair suas esposas em Cingapura. As exposições do Masp são uma droga, segundo IBGE. Brasil perde o chapéu mas consegue mulher e filhos na Copa do cowboy. Boa noite.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Uma do Estágio


Esse caso é verídico, do começo ao fim. Mudarei apenas os nomes para preservar a virtude e a honra dos envolvidos. Só não mudarei o nome do Diogo Stival por que ele não tem virtude nem honra. E isso será provado nas próximas linhas.
Hora do lanche. Todos se dirigem para a cozinha da Associação Brasileira de Supermercados (AGOS). O menu de hoje é o mesmo do de ontem: pão francês com manteiga e café. Todos comem pão francês, todos tomam café, e ninguém usa pratinhos ou papéis-toalha. Ao final de meia-hora, a cozinha está coberta até a borda por migalhas de pão.
Chega o chefe. Ele lança seu olhar chefial pela cozinha e arqueia as sobrancelhas liderantes. Resolve chamar a secretária, cujo nome é Matilde (fictício, obviamente). O chefe pontua a falta de higiene dos empregados e diz que todas as tardes vê a mesma coisa na cozinha da AGOS. Pede à secretária que tome as devidas providências.
A secretária, de ovo virado, chega à sala da Imprensa, onde se encontram nossos dois heróis, o José e o Diogo, conversando sobre Steve Wonder. Ela convida maleficamente ambos a “estar comparecendo na cozinha” . Nossos heróis acompanham a secretária pelos corredores. Ela aponta para a bancada da pia coberta de migalhas e diz: o chefe brigou conosco por causa da bagunça. A partir de hoje usaremos pratos ou papéis-toalha Não posso apontar um culpado, mas todos sabem da própria culpa.
Momentos de silêncio e tensão. O José olha baixo. De repente, o Diogo faz cara de choro, olha para o chão coberto de restos,leva as mãos ao rosto e diz:
- Oh, secretária, você já avisou aos pais dos pães?

E essa foi mais uma tarde na AGOS, a Praça é Nossa do supermercadismo goiano. Não perca, na próxima edição: Tudo pode acontecer quando Diogo, um Relações Públicas do barulho resolve aprontar altas confusões com uma moto e um capacete de Jaspion

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Brevemente vive




inspirado pelo gui( http://galeriaaudaz.blogspot.com/), voltei ao verso:

Brevemente vive

Faz tempo que não poeto
uns minutinhos que me passaram
se me escapuliram
em versos.

Uns dias que me sustaram
de sustância encolhida.
A poesia, que é talho,
em maio esteve ardida

Uns dias que me colheram
de onerosa acolhida.
A poesia, que é a atalho
em maio esteve perdida

Faz tempo que o que poeta
é necessariamente amplo
quando se detém ao universo
num verso de folha não vingam
nem rima, nem vela, nem pranto

E vive brevemente
no contorno de toda palavra
uma espécie de inseto arisco
alguns, íntimos, chamam-lhe alma
outros, ótimos, chamam-lhe cisco

eu, por mim, nada chamo

preciso antes aplainar sentires
ser menos objeto , ainda que urbano
por mim, nada concreto
do tempo que fiz em tempo
há tempos que não possuo
e há tempos que não poeto.